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sábado, 17 de agosto de 2024

 

DUPLA JUSTIFICAÇÃO EM JOHN WESLEY DEFENDIDA NAS OBRAS DE RANDY MADDOX, KENNETH COLLINS, THOMAS ODEN, COLIN WILLIAMS E HARALD LINDSTRÖM

 

Eu me embasarei neste breve texto nos livros de Randy Maddox (Graça Responsável), Kenneth Collins (Teologia de John Wesley), Thomas Oden (John Wesley's Teachings) Colin Williams (La Teología de Juan Wesley), de Harald Lindström (Wesley and Santification) e nos textos em livros de coautoria de Levy da Costa Bastos e Ely Eser Barreto César sobre a questão da dupla justificação (justificação inicial e justificação final) em John Wesley.

No começo de seu ministério, Wesley discordou fortemente de George Bull que escreveu um livro defendendo a dupla justificação. Segundo Maddox, Bull "distinguia entre a nossa justificação inicial, que não depende de prévia santidade de vida, e a nossa justificação final, que depende de que a nossa fé justificadora frutifique na santificação" (MADDOX, 2019, 331). Posteriormente, Maddox escreve que Wesley mudou de ideia sobre o pensamento de Bull e passou a concordar com Bull chamando-o de a "Grande Luz da Igreja Cristã". Vejamos Maddox: "Ironicamente, ao procurar uma maneira adequqada de se proteger contra isso, ele acabou resgatando algo com a distinção de Bull entre justificação inicial e final, agora - trinta anos depois, - chamando Bull de 'Grande Luz da Igreja Cristã'" (Ibid, p. 331).

Maddox ao citar as Minutas da Conferência de 1770, afirma que Wesley destacou, principalmente na sua disputa contra os antinomianos, as boas obras com necessárias para a justificação final: "Certamente, a forma mais forte em que Wesley colocou esse ponto foi nas infames Minutas da Conferência de 1770. Aqui ele argumentou - em refutação aos usos antinomianos da ideia de justiça imputada - que boas obras interiores e exteriores são necessárias em nossa vida cristã 'como condição' da salvação final" (Ibid, p. 334).

Já no final do livro, Maddox destaca o papel da justificação final. Ele menciona o embate entre Wesley e o pensamento escolástico protestante, principalmente o luterano, sobre o papel das obras. Maddox escreve que: "Uma maneira pela qual ele inicialmente resolveu essa questão [entre Wesley e os escolásticos protestantes] foi concordar que a admissão à salvação eterna era baseada na fé somente, mas sugerir que a recompensa proporcional no céu era decidida pela consideração da nossa resposta ativa (isto é, nossas 'obras'). Essa noção de medidas variáveis de bênção no céu se estendeu para escritos posteriores. Mas o Wesley tardio também passou a insistir em que o próprio juízo inicial deve ser baseado em nossas obras, e que aqueles que negam isso estão minando a base da santidade interior e exterior." (Ibid, p. 483). Vejamos que Maddox enfatiza que Wesley, no final da vida, destacou o papel das obras até na justificação inicial, além da final.

Finalizando sobre o entendimento de Maddox sobre a justificação final em Wesley, ele destaca que entre a salvação pelas obras e a eleição (ou predestinação) incondicional, ele preferiria a ideia de salvação pelas obras. Vejamos: "À acusação de que essas posições [salvação dos não evangelizados pelas obras] implicavam a salvação pelas obras, sua resposta [de Wesley] era que ele preferia a salvação pelas obras se a única alternativa fosse a predestinação incondicional." (Ibid, p. 293)

É importante vermos como Kenneth Collins destaca essa questão da justificação final em Wesley. Collins declara o seguinte: "Wesley reconcilia as noções de justificação somente pela fé e de julgamento de acordo com as obras? No sermão 'On the Wedding Garment' (Sobre o Traje de Casamento) [Sermão 120], de 1790, ele explica que essas duas ideias não são contraditórias desde que se tenha em mente que a primeira pertence à justificação inicial, e a segunda, à justificação final". (COLLINS, 2010, p. 419).

Collins cita o referido sermão (120), para o embasamento da santidade, que envolve obras, como pertencente à categoria, além da justiça de Cristo, como critério para entrar-se na Glória. Wesley, sendo citado por Collins, diz o seguinte: "A justiça de Cristo, sem dúvida, é necessária para qualquer alma que entra na glória. Todavia, a santidade pessoal também é necessária para todos os filhos de homem. No entanto, é indispensável observar que elas não são necessárias em diferentes aspectos. A primeira é necessária para nos dar direito ao céu; a segunda, para qualificar-nos para o céu. Sem a justiça de Cristo não podemos reivindicar glória; sem a santidade não termos aptidão para ela" (WESLEY Apud COLLINS, 2010, p. 419). Mais à frente, Collins comenta que "embora a santificação não seja o fundamento da justificação (inicial), é o fundamento da justificação final" (COLLINS, 2010, p. 421)

 

Collins também destaca uma carta de Wesley a Thomas Church sobre a justificação final: "A título de ilustração, em 1745, Wesley escreve para Thomas Church e não só afirma a noção de uma segunda justificação ('Todavia, a santificação completa acontece antes da nossa justificação no último dia'), mas também insiste que 'a santidade interior e a exterior são condições determinadas para a justificação final'" (Ibid, p. 420).

Collins destaca que Wesley voltou-se para Bull, caso já citado acima por Maddox, devido ao embate contra o antinomianismo calvinista a partir de 1770. Collins assevera que "É provável que esse novo apreço pelo bispo [Bull] seja fruto da crescente preocupação de Wesley durante aquela década, em especial, à medida que conhecera o suposto calvinismo antinomianista de Walter Shirley, Rowland Hill e outros" (Ibid, p. 420).

Thomas Oden, o erudito metodista mais conhecido do século passado, que exalava erudição não somente sobre Wesley, mas sobre toda a patrística (aconselhado pelo Papa Bento XVI a editar um livro sobre o comentário bíblico dos Pais da Igreja, o que Oden fez), corroborou também sobre a dupla justificação em Wesley. Vejamos isto na nota de rodapé do seguinte trecho de sua obra em quatro volumes sobre a teologia de Wesley: Aqui [no sermão A Justiça da Fé - 6], Wesley está assumindo uma 'dupla justificação' recebida primeiro pela fé na obra expiatória na cruz e finalmente confirmada na justificação final no último dia (ODEN, 2012, v. 2, p. 84)

Oden segue afirmando a defesa de Wesley da dupla justificação citando a carta já citada acima a Thomas Church e o texto Some remarks on Mr. Hill’s "Farrago Double-Distilled”: "Wesley explicou a distinção bíblica entre a justificação presente e a justificação final no último dia: 'A justificação às vezes significa nossa absolvição no último dia. Mas ... aquela justificação onde nossos Artigos e Homilias falam [significa] perdão presente e aceitação de Deus; quem em tal pessoa Ele declara Sua justiça e misericórdia, por ou para a remissão dos pecados do passado.' Assim, 'a justificação de que falam São Paulo e nossos artigos é uma só ... No entanto, não nego que haja outra justificação (da qual nosso Senhor fala) no último dia.'" (WESLEY In: Oden, 2012, p. 55-56, vol 2) Oden deixa mais claro ainda sobre essa temática citando Wesley a partir do último texto referido acima dele na nota de rodapé onde consta a citação seguinte: "Nenhuma boa obra pode ser feita antes da justificação. No entanto, eu acredito (e sem a menor contradição) que a salvação final é 'pelas obras como uma condição', no sentido de boas obras fluindo da fé, obras dignas de arrependimento: 'Tudo o que você fez por um dos menores dos meus irmãos, você fez por mim!'" (WESLEY In: ODEN, p. 56, vol 2).

Por fim, Oden destaca a menção clara sobre a justificação final por parte de Wesley, que responde a Lavington: "Todo o 'teor' da liturgia anglicana, artigos e homilias foi resumido de forma concisa por Wesley: '(1) Que nenhuma boa obra, propriamente chamada, pode ir antes da justificação; (2) que nenhum grau de verdadeira santificação pode ser anterior a ela (3) que, como a causa meritória da justificação é a vida e morte de Cristo, então a condição dela é fé, somente a fé; e (4) que tanto a santidade interior quanto a exterior são consequentes desta fé e são comuns, condições declaradas de justificação final.' (ODEN, 2012, p. 86, vol 2.). Constatamos claramente o quanto Wesley defendia a justificação final pelas obras que são oriundas da fé.

O livro La Teologia de Juan Wesley (tradução do original em inglês John Wesley's Theology Today) é um clássico de Colin Williams. Nele, Williams afirma o seguinte sobre este assunto: "Parece, de fato, que Wesley cruza até o ponto de vista católico romano de que há duas justificações: a primeira, pela fé somente, e a justificação segunda e final que vem somente quando esta fé está formada pelo amor de tal maneira que, por fim, pelo uso correto da graça de Deus, o crente é capaz de merecer a salvação pelas obras que seguem à fé." (WILLIAMS, 1989, p. 55)

Williams cita Wesley nas Atas da Conferência de 1744: "P. 14. São Paulo diz: Abraão não foi justificado por suas obras; São Tiago diz que foi justificado por suas obras. Não se contradizem um ao outro? R. Não. (1) Porque não falam da mesma justificação que foi quando Abraão tinha setenta e cinco anos, uns vinte anos antes que nascesse Isaque; São Tiago fala da justificação que ocorreu quando ele ofereceu Isaque sobre o altar. (2) Porque não falam das mesmas obras; São Paulo fala das obras que precedem à fé; São Tiago fala das obras que saem da fé." (WESLEY Apud WILLIAMS, 1989, p. 55) Williams até brinca sobre uma fala de Lutero que a pessoa que harmonizasse estas declarações de Paulo e de Tiago teria o título de doutor: "Um observador se perguntaria se Wesley, com esta explicação, não estaria qualificado para receber o título de doutor que Lutero ofereceu à pessoa que pudesse harmonizar essas declarações de Paulo e de Tiago." (WILLIAMS, 1989, p. 55)

O conceituado teólogo erudito em Wesley, Harald Lindström, no seu livro, também um clássico, Wesley and Sanctification, que é utilizado em demasia por Maddox, Collins e Williams, afirma que "em princípio a ideia de dupla justificação e salvação é apresentada imediatamente depois de 1738", enfatizando, mais à frente, que isso "é [...] evidente nas Minutas de 1744 e em A Farther Appeal [to Men of Reason and Religion], publicado no seguinte ano", completando que "ao falar da salvação final na última obra [A Farther Appeal], Wesley chama 'santidade ou obediência universal de 'condição ordinária'. Para a salvação presente, a fé é a única condição, mas, para a salvação final, as obras são também necessárias". (LINDSTRÖM, 1946, p. 207,208).

Lindström afirma que nas Minutas de 1746 (W.VIII, p. 289. Apud LINDSTRÖM, 1946, p. 208-209) Wesley destaca que cada homem será julgado no julgamento final de acordo com suas obras. Vejamos as minutas citadas por Lindström: "P. 24: Mas você considera que estamos debaixo do pacto da graça, e que o pacto das obras agora é abolido? R. Toda a humanidade estava debaixo do pacto da graça, desde a hora exata que a promessa original foi feita. Se pelo pacto das obras você se refere, que a obediência sem recompensa feita a Adão antes da queda, nenhum homem, a não ser Adão, jamais estava debaixo do pacto; pois isso foi abolido antes de Caim nascer. Mesmo isso não foi abolida, mas permanecerá, em uma medida, mesmo no fim do mundo; que é, se nós 'fizermos isso', nós viveremos; se não fizermos, nós morreremos eternamente: Se agirmos bem, viveremos com Deus em glória; se fizermos o mal, morremos a segunda morte. Pois cada homem será julgado naquele dia, e recompensado 'de acordo com suas obras'" (WESLEY Apud LINDSTRÖM, 1946, p. 208-209).

Em uma carta chamada Carta para Muitos Pregadores e Amigos [Letter to Several Preachers and Friends] de 10 de julho de 1771, Lindström declarou o seguinte: "A salvação final pressupõe 'obras como uma condição'. 'E aquele que nega', Wesley escreve dessa salvação em uma carta explicando os princípios da mesma conferência de Londres, 'que tanto as boas obras internas (amar a Deus e nosso próximo) quanto as obras externas (obedecendo Seus mandamentos) são a condição final dela. O que é isso se não mais ou menos que 'Sem santidade nenhum homem verá o Senhor?'" (WESLEY Apud cLINDSTRÖM, 1946, p. 209).

Lindström destaca que "temos visto, então, que a obediência e obras advindas da fé podem ser direta ou indiretamente chamadas necessariamente de justificação final" e, logo em seguida, salienta que "Wesley faz uma distinção entre 'condição' e 'mérito'. Aqui, santificação é relacionada como uma condição de salvação final, mas não como um mérito no tocante à justificação ou salvação final concedida ao homem". (LINDSTRÖM, 1946, p. 210).

É altamente importante vermos como Lindström esclarece a questão sobre Wesley e Fletcher sobre méritos e evidência das obras. Lindström escreve que "a distinção geral de Wesley entre 'condição' e 'mérito' é feita mais precisamente por Fletcher em A Second Check to Antinomianism (Apud LINDSTRÖM, 1946, p. 210), que distingue entre 'evidência das obras' e 'mérito das obras'. Quando falamos que no julgamento final o homem será justificado pelas sua obras, nenhum mérito é envolvido no conceito de 'obras', e, mais à frente, ele destaca: "É o testemunho, não o mérito, das obras que Wesley tem em mente quando ele torna a justificação final dependente delas. É uma questão de 'justificação pela evidência das obras'. (LINDSTRÖM, 1946, p. 210).

Lindström continua em sua afirmação de que a "obediência e santidade são consideradas necessárias para a salvação final, mas elas não têm significância meritória. Tanto na salvação inicial quanto na final tudo é dependente da obra de expiação de Cristo." Logo depois, ele declara que "a insistência simultânea sobre a salvação final como uma obra de Deus e nas obras como o pré-requisito da justificação final, deve ser entendida à luz de sua formulação da questão; aqui não é primariamente uma questão de se a salvação final é obtida através da graça ou do mérito humano" (LINDSTRÖM, 1946, p. 212-213).

Por fim, Lindström salienta que Wesley enfatizava as obras em total e completa objeção ao entendimento calvinista da eleição: "A importância que Wesley atribui às obras é principalmente embasada na sua objeção à doutrina calvinista da eleição" LINDSTRÖM, 1946, p. 214).

José Míguez Bonino abordou sobre a dupla justificação em Wesley. Segundo ele, é importante ver "a ideia da 'dupla justificação': a primeira, inteiramente pela fé, no momento da conversão e a segunda 'não sem obras', no juízo final'. Esta ideia de uma 'dupla justificação' - expressão em si mesma suspeita para o protestantismo desde a época da Reforma - parece colocar Wesley decididamente fora do campo protestante. Creio que o problema deve ser colocado noutros termos. Wesley jamais imagina uma operação humana autônoma, à parte da graça de Deus". (BONINO IN: BONINO [Et al], 1985, p.147,148)

Levy da Costa Bastos realça toda a história acima sobre Bull e Wesley e declara que "Wesley adotou posição radical e irreversível a esse respeito quando da Conferência de 1770, quando se opôs explicitamente ao antinomianismo, argumentando que tanto as boas obras externas quanto internas são condições necessárias para a salvação final (justificação final). (BASTOS In: RIBEIRO [Et al], 2005, p. 87-88)

Ely Eser Barreto César também propaga a dupla justificação em Wesley ao afirmar que "Wesley introduz a indispensabilidade das boas obras de modo teologicamente estranho ao mundo protestante. A partir de sua constatação empírica da impossibilidade da existência de um cristão sem as obras oriundas do interior mesmo da fé, mas não podendo afirmar a realidade de obras meritórias, face à exclusividade da graça de Deus, ele constrói o conceito da dupla justificação. A primeira, resultado da pura graça, no momento da conversão. A segunda, 'não sem obras', no juízo final". (CÉSAR In: RIBEIRO [Et al], 2005, p. 260)

Enfim, todas as citações acima são pertinentes para evidenciar que Wesley cria na dupla justificação. Sendo assim, foram colocadas citações diretas dos autores citados. Portanto, não é uma questão de entendimento particular meu, mas sim uma constatação pesquisada e embasada nos referidos autores disponibilizados abaixo na bibliografia.

 

BIBLIOGRAFIA

BASTOS, Levy da Costa. Justificação e Justiça em John Wesley. In: RIBEIRO [Et al] Teologia e Prática na Tradição Wesleyana: Uma Leitura a Partir da América Latina e Caribe. São Bernardo do Campo: Editeo, 2005.

 

BONINO, José Míguez Bonino. Metodismo: Releitura Latino-Americana In: BONINO, José Míguez [Et Al]. Luta pela Vida e Evangelização. São Paulo: Paulinas, 1985.

 

CÉSAR, Ely Eser Barreto. O Projeto Missionário Presente no Plano para a Vida e a Missão Confrontado com a Tradição Wesleyana e a Programação Missionária da IM no Brasil de 2003. In: RIBEIRO [Et al] Teologia e Prática na Tradição Wesleyana: Uma Leitura a Partir da América Latina e Caribe. São Bernardo do Campo: Editeo, 2005.

 

COLLINS, Kenneth. Teologia de John Wesley: O Amor Santo e a Forma da Graça. [Trad. Lena Aranha]. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

 

LINDSTRÖM, Harald. Wesley and Santifcation. Stockholm: Uppsala, 1946.

 

MADDOX, Randy. Graça Responsável: A Teologia Prática de John Wesley. [Trad. Elisângela A. Soares]. São Bernardo do Campo: Editeo, 2019

 

ODEN, Thomas. John Wesley's Teachings: Christ and Salvation. Vol 2. Grand Rapids: Zondervan, 2012.

 

WILLIAMS, Colin. La Teologia de Juan Wesley: Una Investigación Histórica [Trad. Roy H. May; Fanny Geymonat]. San José: Sebilla, 1989.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Próximo Metodismo como uma Teologia de Recuperação do Metodismo Confessional

Houve alguns artigos escritos recentemente sobre Próximo Metodismo [nova geração do metodismo] e o que pode acontecer. Ao ler esses artigos e refletir sobre eles, a convicção ardente que trago à mesa é que o Próximo Metodismo deve ser definido por uma teologia de recuperação. De acordo com Gavin Ortlund, a teologia de recuperação é definida como "o esforço para se basear na teologia histórica da igreja e na prática para fins construtivos contemporâneos" [1]. No Próximo Metodismo, a teologia histórica do movimento wesleyano deve ser ressuscitada. Caso contrário, temo que o Próximo Metodismo seja como o  Último Metodismo [o metodismo atual]. De acordo com a teologia de recuperação por Keith Stanglin "não é uma replica servil do passado, seja do primeiro, quarto, décimo sexto ou qualquer outro século. É antes aprender com a história. É tomar o melhor do passado e permitir que ele informe nossa fé e prática hoje. Significa valorizar a perspectiva histórica "[2]. Essencialmente, o objetivo da teologia de recuperação é olhar para  trás, a fim de olhar para a  frente . Acredito que o movimento wesleyano em geral e a Igreja Metodista Unida em particular estão em um ponto crítico de sua história. A fim de avançar para a frente, para um dia mais brilhante, o metodismo deve retornar de volta à teologia histórica da tradição wesleyana.
A única maneira que o Metodismo seguinte poderia ser verdadeiramente wesleyano é que ele recupere sua tradição teológica perdida. Historicamente, os metodistas não foram defensores fortes ou defensores de sua própria herança teológica. É duvidoso que muitos que se identificam como wesleyanos hoje leram alguma coisa de John Wesley ou já ouviram falar de Jacob Arminius, John Fletcher, Adam Clarke, Joseph Benson, Richard Watson, William Burton Pope ou Thomas O. Summers. Fred Sanders observa em uma entrevista com a Gospel Coalition, "não é tão óbvio que existe algo como a teologia wesleyana. Digo isso como alguém que ama a teologia sistemática, que realmente gosta de ler tratados sobre doutrina. A tradição wesleyana não é famosa pelos teólogos sistemáticos "[3].
Fred Sanders traz um bom ponto que merece consideração séria. Muitas pessoas nem sabem que existe uma teologia Wesleyana. A minha pergunta é se a tradição wesleyana não é famosa por seus teólogos sistemáticos por causa dos próprios teólogos ou porque aqueles que foram encarregados de promover a teologia wesleyana não foram fiéis à sua vocação. Eu diria que é o último. As maiores editoras metodistas, Abingdon e Cokesbury, nem publicam nenhum dos grandes teólogos metodistas. Se você procurar seus nomes em seus sites, nenhum resultado aparecerá. Em vez disso, se você visitar seus sites, você verá como eles estão promovendo um livro contendo as devoções diárias de Hillary Clinton e  The Shack. Nem as editoras promovem muita coisa em relação à teologia wesleyana. Desejo ver um dia que os Institutos Teológicos  de Richard Watson serão publicados novamente, juntamente com o  Compendium teológico  de William Burt Pope e  The Commentaries de Joseph Benson. É tão fácil comprar Calvino, Hodge, Bavinck, Van Til ou Berkhof. Nenhuma publicação desse tipo de obras teológicas metodistas está disponível. Wesleyanos que são sérios em estudar as obras de seus teólogos históricos são obrigados a encontrar cópias digitalizadas de livros antigos disponíveis gratuitamente na Internet. É desanimador e triste que os wesleyanos não tenham editoras que sejam fiéis à sua herança teológica, como Crossway e Banner of Truth [no Brasil, editoras como PES e Fiel] são para a tradição Reformada.
São pensadores reformados que dominam a lista de teólogos. Isso ocorre porque eles foram promovidos uma e outra vez por gerações de cristãos reformados, enquanto gerações de wesleyanos esqueceram em grande parte seus teólogos. O domínio dos teólogos reformados é especialmente visto hoje no movimento de novos calvinistas. Gigantes de publicação como Crossway e Banner of Truth existem porque os calvinistas gostam de ler sobre a teologia calvinista. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer daqueles que estão dentro da tradição wesleyana em geral. Aqueles dentro do movimento New Calvinist [Novo Calvinismo] leem teólogos calvinistas, falam sobre teólogos calvinistas, fazem podcasts sobre teólogos calvinistas e usam camisas com imagens de teólogos calvinistas. Se os jovens wesleyanos querem ler a teologia dos teólogos metodistas, não encontrarão livros disponíveis para comprar.
Novos calvinistas acertaram com sucesso o mercado em teologia na última década. Nenhuma outra tradição protestante chega perto. A sua teologia se espalhou através de podcasts (Reformed Pubcast, Theocast, Doctrine and Devotion, etc.), empresas de vestuário (Missional Wear), editoras (Crossway, Banner of Truth, etc.), blogs, coletivos (o Reformed Pub), conferências; para ministérios da igreja (TGC, Desejando Deus, etc.), redes de plantação de igrejas (atos 29), documentários ( calvinistas) está saindo este ano), música (particularmente rap) e sites de redes sociais. Wesleyanos tem sido principalmente silenciosos diante dessa explosão criativa da atividade teológica. Por exemplo, os cursos de teologia calvinista abundam na Universidade iTunes; você não encontrará nenhum curso de teologia wesleyana disponível. Procure na loja de aplicativos do iTunes. Se você procurar por Jonathan Edwards, pode encontrar um aplicativo que contenha seus trabalhos completos gratuitamente e um aplicativo de estudos teológicos de Jonathan Edwards. Você não encontrará nada como isso disponível se procurar por John Wesley. Também é difícil encontrar podcasts de uma perspectiva armínio-wesleyana, embora alguns tenham surgido recentemente. A mensagem que isso comunica é que se você realmente estiver interessado em teologia, deveria considerar se tornar um calvinista porque a teologia wesleyana é rara, mesmo que exista.
Outro ponto que Sanders faz na entrevista é que as tradições teológicas wesleyanas não fizeram um bom trabalho de resistir ao impulso liberal [3]. A maneira mais rápida de cair no liberalismo teológico é esquecer a teologia em que sua tradição foi fundada. Este é outro fator que levou ao declínio acentuado das denominações wesleyanas (particularmente a Igreja Metodista Unida). A maneira mais rápida de matar uma denominação é permitir o liberalismo teológico de seus seminários e púlpitos. De acordo com um artigo recente do Washington Post, as igrejas liberais continuam a morrer e as igrejas conservadoras prosperam. O artigo afirma: "As igrejas protestantes da Mainline [igrejas protestantes históricas] estão em apuros: um relatório do Centro de Pesquisa Pew, em 2015, descobriu que essas congregações, uma vez que são o pilar da religião americana, agora estão diminuindo cerca de 1 milhão de membros anualmente" [4].
A Igreja Metodista Unida talvez esteja diminuindo o mais rápido de todas as igrejas protestantes principais. De acordo com Collin Hansen em um artigo recente da The Gospel Coalition: "Quando nossos pais cresciam, a Igreja Metodista Unida tinha 11 milhões de membros nos Estados Unidos sozinhos. Esse número é agora de 7,2 milhões, e a taxa de declínio está aumentando. Nos últimos cinco anos, a adesão caiu 6 por cento "[5]. Se nada mudar na Igreja Metodista Unida, ela pode deixar de existir em algumas décadas. Pode-se imaginar quanto tempo demorará para que as pessoas percebam que deve haver uma reforma séria na Igreja Metodista Unida. Só o tempo irá dizer. Também oro para que outras denominações wesleyanas, como a Igreja Wesleyana e a Igreja Nazarena, não sigam o exemplo da Igreja Metodista Unida. Mais apenas o tempo dirá.
Hansen continua a descrever onde esses ex-metodistas unidos estão indo. "Todo grupo evangélico que conheci desde 2000 foi abastecido com ex-metodistas unidos. E cada história é a mesma. Para encontrar sua experiência Aldersgate de amor para Deus que justifica os pecadores, eles tiveram que deixar a Igreja Metodista Unida. Para ouvir a pregação que agita a mente e os afetos com uma confiança inabalável na Palavra de Deus, eles tiveram que deixar a Igreja Metodista Unida. Para encontrar a teologia que os acumularia para estar com Jesus e não ser varrido pelas modas teológicas, eles tiveram que deixar a Igreja Metodista Unida "[5]. Eles estão indo para igrejas que pregam o Evangelho, que acreditam na autoridade da Palavra de Deus e que mantêm uma teologia robusta e histórica. A tragédia e ironia é que esses mesmos fatores definiram o metodismo histórico! O metodismo histórico pregava o Evangelho do amor a Deus, que justifica os pecadores, acredita na autoridade da Palavra de Deus e realiza uma teologia robusta e histórica. Mas, infelizmente, isso está confinado ao passado.
Mesmo depois de considerar tudo isso, ainda tenho esperança para o Próximo Metodismo, mas acredito que deve começar a olhar para trás para que se possa olhar para a  frente. A teologia da recuperação trouxe muita revitalização e ressurgimento ao movimento Novo Calvinismo e seria tolo para os wesleyanos continuarem a ignorar esse fenômeno. O movimento de novos calvinistas fascina os milenares evangélicos como eu. Se os grupos wesleyanos ignoram seus sucessos e estratégias, é claro que eles não têm visão para o futuro, não estão interessados ​​em alcançar pessoas mais jovens e preferem se contentar com o que deixaram as gerações mais velhas que ocupam seus bancos.
Outra fonte de esperança para mim é um pequeno ressurgimento do entusiasmo pela teologia wesleyana. Quando Thomas C. Oden publicou sua obra de quatro volumes,  John Wesley's Teachings, em 2014, foi um sonho tornado realidade para os interessados ​​na teologia wesleyana. Em termos de obras de teologia wesleyana, nenhum a rivaliza. Curiosamente, a editora Zondervan quem a publicou, e não a editora metodista Abingdon. Além disso, as obras de Kenneth J. Collins, como  The Theology of John Wesley [A Teologia de John Wesley, publicada no Brasil pela CPAD], juntamente com suas obras anteriores, são excelentes. Também foi bastante incrível que Crossway permitiu que um volume da série "Theologians on the Christian Life" fosse sobre John Wesley, escrito por Fred Sanders. É chamado  Wesley sobre a vida cristã: o coração renovado em amor . Suponho que, se a maioria dos metodistas não estivere interessado ​​em publicar livros sobre a teologia de John Wesley, é encorajador saber que pelo menos alguns calvinistas estão dispostos a fazê-lo. Outros editores menos conhecidos também estão saindo com trabalhos sobre a teologia wesleyana, como Fundamental Wesleyan Publishers, Pickwick Publications e Cascade Books. Tanto as publicações Pickwick quanto os livros em cascata fazem parte dos editores WIPF e STOCK. A Fundamental Wesleyan Publishers publicou recentemente a  A Wesleyan Theology of Holy Living for the 21st Century [Teologia Wesleyana da Sagrada Vida para o século XXI]. As publicações de Pickwick recentemente vieram com um excelente livro intitulado Faith to Faith: John Wesley’s Covenant Theology and the Way of Salvation [De fé para fé: a teologia da aliança de John Wesley e o caminho da salvação] por Stanley J. Rodes e livros em cascata publicados  Anticipating Heaven Below: Optimism of Grace from Wesley to the Pentecostals [Antecipar o céu abaixo: otimismo da graça de Wesley aos pentecostais]  por Henry H. Knight III. É emocionante ver que essas editoras menos conhecidas estão dispostas a publicar trabalhos sérios de teologia wesleyana. Desejo ver um dia que haveria uma empresa editoral do calibre de Crossway dedicada  inteiramente para obras publicitárias de teologia wesleyana. É claro que Abingdon e Cokesbury, à medida que continuam a avançar para a esquerda teológica, nunca mais serão esta editora que promoverá uma confessionalidade wesleyana. Há uma oportunidade para outra empresa editorial entrar nesse vácuo, mas mesmo isso seria impossível se não houvesse um abraço generalizado de uma teologia de recuperação para wesleyanos. Também não podemos esquecer Seedbed. O esforço de publicação da John Wesley Collection é emocionante e eles publicaram recentemente um excelente livro intitulado  The Rise of Theological Liberalism e The Decline of American Methodism  de James V. Heidinger II. A Seedbed publica algum material sobre a teologia wesleyana, embora eu gostaria de vê-los mais dedicados às obras de publicação focadas especificamente na teologia wesleyana histórica nos próximos anos.
Nos artigos e discussões em curso sobre Próximo Metodismo, devemos considerar seriamente a importância de uma teologia de recuperação para a tradição wesleyana. Se isso não for feito, o metodismo seguinte acabará como o Último Metodismo. Um retorno à teologia dos fundadores do metodismo é necessário para qualquer movimento de renovação dentro das denominações wesleyanas ou grupos wesleyanos. Se isso não acontecer, a tradição teológica que os wesleyanos têm para preservar e promover será perdida para sempre. Devemos olhar para trás, para olhar para a frente.
-Vin @ Remonstrance
Notas:



Fonte: http://evangelicalarminians.org/next-methodism-as-a-theology-of-retrieval/

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Uma Breve Entrevista com o Erudito Thomas Oden sobre o Marxismo e a Igreja Metodista nos EUA

      



      Apresentamos a parte disponível da entrevista que o site Acton Institute disponibilizou. O erudito em patrística Thomas Oden (falecido em 2016) mostra como deixou o marxismo para se tornar uma referência na ortodoxia cristã e sobre como anda a Igreja Metodista Unida, da qual faz parte, em relação à ortodoxia.

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      Na próxima edição de Inverno 2011 [a tradução deste artigo foi feita em 2017] de Religion & Liberty, apresentaremos uma entrevista com Thomas C. Oden. A entrevista centra-se principalmente na importância e sabedoria dos padres da Igreja e sua profunda relevância para a Igreja e para a cultura de hoje. O conteúdo abaixo, no entanto, mergulha na teologia da libertação marxista e na direção da própria denominação de Oden, a Igreja Metodista Unida. Algumas das partes abaixo estarão disponíveis apenas para leitores do PowerBlog.

      Gostaria de acrescentar uma breve nota pessoal sobre Tom Oden também. Seu trabalho e seus escritos foram uma bênção imensa em minha própria vida. Sua pesquisa foi vital para minha própria formação espiritual no seminário e além dele. Tenho muitos amigos e colegas que testemunhariam o mesmo. Eu ainda leio sua teologia sistemática de três volumes como uma devoção. Foi um prazer passar tempo com ele durante esta entrevista e seu coração pastoral é tão grande quanto seu coração acadêmico.

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Thomas C. Oden é um professor aposentado de teologia na Escola Teológica da Universidade Drew em Madison (NJ).  É o autor de trabalhos teológicos numerosos, incluindo a teologia sistemática de três volume:  The Word Life (A Palavra da Vida), Life in Spirit (A Vida no Espírito) e The Living God (O Deus Vivo). Atualmente é diretor do Centro do Cristianismo Africano Antigo na Eastern University, St. Davids, (Pa). Ele é o editor geral do Comentário Cristão Antigo sobre as Escrituras e a antiga série da Doutrina Cristã. Ele palestrou recentemente com Ray Nothstine, editor-chefe da Religion & Liberty.

Religion & Liberty (doravante RS) - Obviamente, a teologia marxista atingiu um pico nos anos 70 e 80 em grande medida. A teologia da libertação é uma construção marxista em declínio? E se sim, por quê?

Thomas Oden (Doravante TO) - A práxis marxista tem sido desde os Gulag de Stalin, o Grande Salto de Mao [Tsé Tung], e a economia e estado policial pobres de Cuba. O Muro de Berlim era intelectualmente o carro-chefe. Mas os teólogos estavam atrasados ​​em reconhecer suas vulnerabilidades. Isso porque eles estavam muito endividados às suposições morais básicas da consciência moderna: narcisismo hedônico, relativismo absoluto e reducionismo naturalista. O rápido declínio das soluções marxistas não foi reconhecido por muitos de seus defensores, especialmente aqueles na classe do conhecimento.

Há uma série de diferentes tipos de teologia da libertação, por isso, se você está perguntando sobre a teologia da libertação feminista ou a teologia da libertação negra, ou mais no sentido global da libertação das nações colonizadas do colonialismo, essas são perguntas diferentes.

Eu tenho uma história pessoal de ser lento para desistir dessas ilusões, mas não tão lento como muitos de meus colegas teológicos, ainda preso em um sonho pseudo-revolucionário. Eu estava muito profundamente na imaginação socialista até cerca de quarenta anos atrás. Li muito de Marx por 20 anos antes da imerecida graça mudar a direção da minha vida.

A visão marxista da história é determinista, um determinismo econômico que imagina que sabe como a história vai se concretizar. Provou ser uma imaginação muito perigosa. Para os cristãos, o desdobramento da história universal é guiado pela providência, mas não negando a escolha humana. Para um marxista, esse desdobramento se deve a um determinismo econômico que coloca classe contra classe. O que você está tentando fazer no marxismo é elevar a consciência do proletariado para que ele se rebele contra seus opressores. Esse modelo básico é facilmente visto analogamente na maioria das formas de teologia da libertação.

O que eu tive que passar foi uma desilusão do meu marxismo. Como isso aconteceu? Aconteceu pelo reconhecimento das imensas injustiças criadas pelo marxismo. Estou falando de milhões de pessoas mortas no Camboja, um quarto da população - uma visão marxista inspirada em salões expatriados pseudo-intelectuais em Paris.

Quando você realmente olha para as conseqüências sociais do marxismo, é extremamente difícil defendê-las. Achei mais difícil e mais difícil defendê-los. A visão marxista da história está em declínio porque é um fracasso histórico. Há alguns pequenos lugares onde ainda se pretende estar no futuro, como na Venezuela, que imita Cuba. Mas olhe para Cuba. Cuba já decidiu que o comunismo não funciona depois de tantos anos? Sessenta tristes anos. Os cubanos estão tentando. Eles estão tentando muito, na verdade, obter a sua economia fora da caixa de um sistema operado pelo Estado.

RS - Você é um metodista e tem sido um erudito metodista durante toda a vida. O que você acha do futuro da Igreja Metodista Unida? Eu penso que muitos evangélicos conservadores ouvem coisas negativas sobre a denominação como sobre ela se relacionar com o liberalismo teológico. Mas quais são alguns aspectos positivos?

TO - Em muitos aspectos estão longe de ser deprimente. Os protestantes liberais [na Igreja Metodista Unida] ainda têm as Escrituras, seu hinário em grande parte está intacto e seus padrões confessionais, que, na minha tradição, são os 25 Artigos de Religião e os Sermões Padrões de Wesley. Ainda temos nossos padrões doutrinários. Eles fazem parte da nossa Constituição. Eles não podem ser facilmente adulterados.

Há, obviamente, muito erro terrível com nossa atual forma liberal burocrática de governança. Nossa pergunta é realmente: O que há para ser aprendido com isso? Agora estou trabalhando em um trabalho de quatro volumes sobre John Wesley. Acho que a resposta-chave é o próprio Wesley. Ser liberal e estar na liderança da nossa igreja é como ser um luterano e não ter lido Lutero, ou ser um evangélico reformado e não ter se preocupado em ler Calvino. Temos muitos metodistas que nem sequer tocaram na grande sabedoria de Wesley. Agora vamos nos amarrar em Wesley com a tradição patrística. Wesley passou a estar em Oxford numa época em que havia um grande avivamento patrístico acontecendo. Isso significa que esses escritos cristãos primitivos estavam sendo avidamente lidos no Lincoln College em Oxford em suas línguas originais. Wesley podia facilmente ler Clemente de Alexandria em grego, ou Cipriano ou Agostinho em latim. Ele trouxe toda essa sabedoria com ele para o reavivamento evangélico do século XVIII. Ele publicou a versão de uma pessoa leiga dos escritores Ante-Nicene.

Penso que a maior parte da tradição metodista e da tradição anglicana de onde ele veio, e também, creio eu, das tradições presbiteriana e luterana, estão experimentando o mesmo tipo de amnésia em relação às suas próprias raízes. Em cada um desses casos, como no caso de Lutero e Calvino e Wesley, todos estes foram muito mais fundamentados nas antigas tradições orientais e ocidentais da Ortodoxia do que na igreja contemporânea. Então eu quero ver metodistas lendo Wesley. Eu também quero vê-los ler os antigos escritores cristãos.

O núcleo do dilema da eclesiologia protestante liberal reside no nosso clero e nos seminários que os geraram. Os leigos, em geral, permaneceram leais à fé uma vez entregue aos santos. Eles vêm e cantam os hinos da igreja e ouvem, às vezes, os maus sermões, às vezes os bons sermões. Mas a fé dos leigos não mudou realmente. É a fé do clero que se tornou fraca, e depois de cinquenta anos de vida dentro do ethos liberal do seminário, eu carrego isso em grande parte para as confusões que ocorreram nos seminários. Mais especificamente, a responsabilidade tem sido falha pelos curadores de seminários. Os benfeitores originais dos seminários ficariam chocados. Falta a responsabilidade dos doadores. Os bispos falharam em sua tarefa principal de serem os guardiões da doutrina cristã. A doutrina que eles concordaram em manter em seus votos de ordenação. Eles criaram um problema que levará muito tempo para ser corrigido.

Nós já temos na Igreja Metodista Unida muitos movimentos ativos e significativos dando resistência à "igreja do que está acontecendo agora". Estou pensando no Movimento Confessante dentro da Igreja Metodista Unida que começou em 1993 e agora tem Mais de 600.000 correspondentes. Não é algo que os bispos ou seminários possam ignorar.


Tradução: Marlon Marques

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sobre Eu Ainda Pensar Como Um Metodista

    


    O texto abaixo é do pastor metodista Craig L. Adams. O pr. Adams é um metodista conservador da United Methodist Church e tem um site, com o seu nome, onde explora a teologia wesleyana. Pode ser encontrado na sessão Commonplace Holiness. Boa leitura.

 

    Na primeira parte de seu livro publicado em 2012 chamado Como Deus Tornou-se Rei: A História Esquecida dos Evangelhos, N. T. Wright comenta sobre como a Igreja nem sempre se permitiu ouvir o pleno testemunho dos Evangelhos sobre Cristo. Eu não vou tentar reproduzir o argumento aqui; sugiro que leia o livro.

    Wright começa por discutir algumas maneiras que os ensinos da Igreja involuntariamente perderam o rumo. E, como ele está discutindo como vários teólogos do passado tentaram defender a ortodoxia de alguns ensinos mal interpretados da Bíblia, ele diz, na página 37, que "o século XVIII viu grandes movimentos de avivamento, em particular através do movimento metodista legado por John e Charles Wesley e George Whitefield ", e ele continua a dizer.:

Sua teologia e sua compreensão dos evangelhos são bastante diferentes dos temas sobre os quais eu não estou qualificado para falar. Mas eu suspeito que a ênfase de Wesley na experiência cristã, tanto a experiência "espiritual" de conhecer o amor de Deus no próprio coração e vida e da experiência "prática" de viver uma vida santa por si mesmo e de trabalhar pela justiça de Deus no mundo, poderia muito bem ser citada como evidência de um movimento no qual partes da igreja chegaram a integrar vários elementos nos evangelhos, uma síntese que a maioria do cristianismo ocidental tem permitido desmoronar.¹

    O movimento wesleyano, em seu início, abraçou em conjunto um desafio para uma vida verdadeiramente transformada por meio da fé, e um compromisso para ver os valores do Reino de Deus implementados na terra. "... Venha o teu reino, tua vontade, assim na terra como no céu".

    Conheço pessoas que foram levantadas nos ramos mais rigorosos, mais legalistas do movimento wesleyano de santidade, que aprenderam a se ressentir. Eu entendo. Mas isso não tem sido a minha experiência.

    Sou grato por ter ouvido o Evangelho entre um grupo de pessoas que acreditavam que a fé em Cristo faz uma verdadeira mudança observável na vida de uma pessoa. Sou grato por uma comunidade de fé que acredita que a mudança moral e espiritual é possível. Sou grato por uma comunidade de fé por ter falado de uma fé que poderia ser experimentada. Sou grato por uma comunidade de fé que acredita que o Evangelho tanto poderia mudar as pessoas e mudar a sociedade.

    No início da minha vida cristã eu comecei a ler os escritos de Adam Clarke e John Wesley. Isto teve um efeito poderoso sobre como eu interpreto as Escrituras nos dias de hoje - e eu sou grato pelas percepções dos primeiros metodistas sobre o significado das Escrituras.

    Então, eu aprecio a chamada de atenção de Wright para a síntese wesleyana originais.

    Mesmo agora, enquanto eu me sinto profundamente alienado a partir das estruturas institucionais da Igreja Metodista Unida, eu ainda me sinto atraído pela síntese metodista original da fé e da vida, e da compaixão e justiça. Wesley conseguiu isso, aprendendo com a Bíblia, e tanto com a Reforma (com a sua ênfase na justificação pela fé) e com a tradição mística católica romana (com sua ênfase na perfeição cristã). Wesley argumentou que, se a justificação (nosso relacionamento com Deus) foi pela fé, bem, então, a santificação (nossa conformidade com o caráter de Cristo) deve ser pela fé também. Isso levou a uma ênfase no poder do Espírito Santo, ao invés de uma ênfase sobre os esforços morais e empenho. E, se Deus pode mudar as pessoas (por mais difícil que seja o trabalho) por que não esperamos que Deus mude o mundo?

    Isso não quer dizer que tudo o que John Wesley disse é correto. Esse não é o ponto. Longe disso. Wesley apontou em uma direção que eu continuo achando interessante e desafiador para seguir.

    Mas, no entanto, quanto às suas observações iniciais, Wright rapidamente acrescenta:

Mesmo dentro do próprio metodismo, no entanto, eu não percebo os finos instintos deixados pelos primeiros líderes de uma compreensão integrada e enriquecida, a longo prazo, de textos centrais da igreja, os Evangelhos.²
    Na verdade, isso não aconteceu. E o entusiasmo espiritual e intelectual inicial dos irmãos Wesley, Fletcher, Whitefield, Clarke e Watson não se manteve nas gerações que se seguiram. Parte do movimento tendia para a ênfase da experiência emocional minimizando o intelecto - e outra parte abraçou a tradição teológica iniciada por Friedrich Schleiermacher [o liberalismo teológico]. Não só não houve "má compreensão integrada e enriquecida, a longo prazo... [d]os evangelhos." - como também a síntese original se desfez.

    Mas aqui está a questão. Eu ainda acredito em um aqui-e-agora do Evangelho que transforma as pessoas para melhor e impacta o mundo para melhor.

    Então, nesse sentido, sim, eu realmente ainda penso como um metodista.

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Notas

¹ N. T. Wright, How God Became King: The Forgotten Story of the Gospels [Como Deus Tornou-rei: A História Esquecida dos Evangelhos](HarperOne 2012) página 37.

² Ibid