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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

É possível ser perfeito nesta vida? Um breve estudo sobre a doutrina da perfeição cristã

A doutrina da perfeição cristã passou (e ainda passa) por muito preconceito em função da má compreensão de sua etimologia. Normalmente, as pessoas a desprezam imediatamente por considerarem que é impossível ser “perfeito” nesta vida. Antes de explicar a questão etimológica, vale a pena também citar que esta mesma doutrina possui outras nomenclaturas, tais como “inteira santificação” “perfeito amor,” “pureza de coração,” “batismo com, ou enchimento do Espírito Santo,” “plenitude da bênção,” e “santidade cristã.” Contudo, é possível ser perfeito nesta vida? Sei que a pronta resposta é, majoritariamente, que não. Mas, analisaremos nas linhas abaixo algumas questões importantes sobre o tema.
Em primeiro lugar, vale a pena avaliar algumas passagens bíblicas que envolvem o tema “perfeição.” No sermão do monte, Jesus fez a seguinte exortação: “Sede vós, pois, perfeitos (gr. teleios), como é perfeito o vosso Pai celestial” (Mt 5.48). Seria estranho, talvez uma hipocrisia, Jesus cobrar algo de seus seguidores que fosse inatingível nesta vida. Soaria muito estranho. É como se Ele dissesse “seja” mas é “impossível ser.” Em outra ocasião, mais especificamente na oração sacerdotal, Jesus disse: “E eu lhes dei a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um; eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos (teteleiōmenoi) em unidade...” (Jo 17.22,23).
O Apóstolo Paulo também fez uso do assunto “perfeição” em suas epístolas. Aos filipenses, por exemplo, ele declarou que a perfeição é algo exeqüível nesta vida e afirma a existência de pessoas perfeitas, dentre as quais ele estava incluso: “Pelo que todos quantos somos perfeitos (teleioi) tenhamos este sentimento; e, se sentis alguma coisa de modo diverso, Deus também vo-lo revelará” (Fp 3.15). Em outra ocasião, Paulo explica que Cristo deve ser anunciado. Contudo, a mensagem da cruz não consiste apenas no novo nascimento, mas também numa vida frutífera e transformada, de perfeição cristã. Por isso, Paulo alega que é necessário falar de Cristo, “o qual nós anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito (teleion) em Cristo” (Cl 1.28).
Essa perfeição, entretanto, pode ser perdida caso alguém se apostate de Cristo. Por isso Paulo aborda que Epafras orava pela perseverança dos irmãos: “Saúda-vos Epafras, que é um de vós, servo de Cristo Jesus, e que sempre luta por vós nas suas orações, para que permaneçais perfeitos (teleioi) e plenamente seguros em toda a vontade de Deus” (Cl 4.12). “Perfeição cristã” não é um assunto exclusivo de Jesus ou de Paulo. Tiago também sabe a importância e mostra que as adversidades da vida são pedagógicas, isto é, elas nos aperfeiçoam moldando-nos, a fim de que nosso caráter seja cada vez mais parecido com o de nosso Mestre e Salvador Jesus Cristo: “...sabendo que a aprovação da vossa fé produz a perseverança, e a perseverança tenha a sua obra perfeita (teleion), para que sejais perfeitos (teleioi) e completos, não faltando em coisa alguma” (Tg 1.3,4).
Como se pôde perceber, as palavras gregas dos textos bíblicos supracitados são teleioi, teleion, teleios e teteleiōmenoi. Todas essas palavras vêm de teleios, cujos significados, de acordo com o lexicografista Strong, podem ser: perfeito, completo em todas as suas partes, plenamente desenvolvido, algo relacionado especialmente à completude da integridade do caráter cristão, ou maturidade. Ser perfeito, portanto, não quer dizer exatamente impecável, como vem de imediato em nossas mentes. Essa confusão ocorre, entretanto, em função da diferença etimológica. Pensamos em “perfeito” a partir de sua definição latinizada, oriunda de perfectus, cujo significado é o de 100% em alguma coisa. Obviamente que é impossível ser 100% impecável nesta vida. Contudo, a “perfeição” bíblica traz outros significados, dentre os quais vale destacar, em primeira mão, a ideia de maturidade.[1]
O autor da carta aos hebreus, por exemplo, exorta seus leitores a crescerem na fé. Era vergonhoso que naquela comunidade as pessoas ainda estavam precisando estudar os princípios basilares da fé cristã. Ele deveriam estar estudando e até mesmo ensinando questões mais profundas sobre Cristo e a salvação disponibilizada por Ele. Por isso, o autor da epístola disse: “Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos (teleion), os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5.13,14). O alimento sólido é para os cristãos mais maduros, mas, os crentes hebreus estavam agindo, ainda, como neófitos. Deveriam ensinar, mas tinham de aprender.
Paulo reconhece, ainda, que essa “perfeição” (maturidade) não é estática, isto é, não é algo paralisador. O cristão deve sempre buscar crescer na graça de Deus e amadurecer cada vez mais no relacionamento com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a natureza. Para isso foi que o Senhor instituiu ministros em sua igreja, os Apóstolos (plantadores de igrejas), Profetas (pregadores), Evangelistas, Pastores e Mestres. Esses ministros têm a incumbência de ensinar e incentivarem o povo de Deus a amadurecerem na caminhada cristã, “até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa (teleios) de Cristo” (Ef 4.13 – ARC). A Nova Tradução da Linguagem de Hoje traduziu o mesmo verso da seguinte maneira: “Desse modo todos nós chegaremos a ser um na nossa fé e no nosso conhecimento do Filho de Deus. E assim seremos pessoas maduras (teleios) e alcançaremos a altura espiritual de Cristo” (Ef 4.13 – NTLH).
Desta forma, a “perfeição cristã” possui estágios cronológicos na vida do crente. Ela tem início, meio e fim. O início se dá com a regeneração; o meio ocorre com a santificação; e o fim ocorrerá com a nossa glorificação. Sendo assim, A perfeição requerida na Bíblia, portanto, não tem nada a ver com perfeição divina (que é absoluta), ou com perfeição angelical, adâmica (no sentido antes da Queda), ou de conhecimento.[2] Além do significado ligado a maturidade, as palavras gregas teleioi, teleion, teleios e teteleiōmenoi derivam do radical telos, que significa “finalidade” e é dela que vem a nossa palavra portuguesa teleologia, conforme aponta o teólogo nazareno Thomas Noble.[3]
A “perfeição cristã” bíblica possui, portanto, três aspectos inerentes: um início (ocorrido na regeneração), um processo de maturidade (desenvolvido na santificação) e uma finalidade (alvo e propósito, que podem tanto ocorrer nesta vida como culminará na glorificação). Um exemplo disso pode ser visto na obra supracitada do Dr. Noble: “o jogador de golfe não apenas faz uma jogada perfeita, uma vez que a bola cai no buraco; mesmo enquanto a bola navega maravilhosamente pelo ar, ela é uma jogada ‘perfeita.’ Na verdade, apenas porque ela é uma jogada ‘perfeita,’ do momento em que ele bate na bola, é que ela pousa no buraco em única jogada.”[4] O que faz essa jogada ser “perfeita”? O fato de ela atingir o alvo numa única tacada e consolidar um hole in one?[5] Absolutamente, não! O taco escolhido, as condições climáticas (sol, velocidade do ar, etc), a força deslocada à bola e o movimento parabólico da mesma somam a perfeição da jogada!
Além desse quesito gradual (perfeição não estática), a perfeição cristã também tem a ver com a finalidade. Uma caneta foi criada com a finalidade de escrever. Não importa se usamos uma BIC que custa R$ 2,00 ou se usamos uma Montblanc de R$ 10.000. Não importa também se a caneta está mordida ou se está com o tubo quebrado, contato que escreva. Desta forma, se esta caneta escreve, ela é perfeita, pois está cumprindo com sua finalidade. A questão é que Deus tem finalidades terrenas para os cristãos. Somos chamados para ser “...testemunhas” (At 1.8), para sermos “...conformes à imagem de seu Filho...” (Rm 8.29), para sermos “santos e irrepreensíveis” (Ef 1.4), fomos encarregados de levar a “... palavra da reconciliação” (2 Co 5.19) e até mesmo criados em Cristo Jesus “...para as boas obras..” (Ef 2.10). Enquanto não somos glorificados devemos ser perfeitos anunciando o Evangelho, buscando a santidade de vida e até mesmo nos engajando com as boas obras, a fim de que os ímpios as vejam e glorifiquem ao nosso Pai celestial (Mt 5.16).
Voltando à pergunta inicial deste breve ensaio: “é possível ser perfeito nesta vida”? A resposta bíblica é que sim, é possível! Podemos sair da estaticidade e buscar maior interação com o Deus vivo, a fim de que cresçamos em sua graça e no conhecimento de Sua Palavra. Esse crescimento é sempre contínuo nesta vida e não tem nada a ver com impecabilidade. É um crescimento cujo mérito está na graça de Deus e jamais no esforço humano. É um crescimento que aperfeiçoa nossa vida, beneficia nossos relacionamentos e que, no final das contas, glorifica ao Deus Todo Poderoso. Que possamos ser perfeitos, assim como é perfeito o nosso Pai Celestial!
Soli Deo Gloria


Notas

[1] ODEN, Thomas. John Wesley’s Scriptural Cristianity: a plain exposition of his teaching on Christian doctrine. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1994, p. 314.
[2] WILEY, Orton. Introdução à teologia cristã. Campinas: CNP, 2009, p. 337.
[3] NOBLE, Thomas. Trindade Santa, Povo Santo: a teologia da perfeição cristã. Maceió: Sal Cultural, 2015, p. 34.
[4] Ibid, p. 35
[5] Hole in One é o nome da jogada de golfe na qual o alvo é atingido com uma única tacada.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

John Wesley e a Doutrina da Perfeição Cristã

Antes de tudo, gostaria de salientar que é necessário, para uma melhor compreensão da perfeição cristã, no entendimento de John Wesley ler os sermões 40 (Perfeição Cristã), 41 (Os Pensamentos Errantes) e o livro Explicação Clara da Perfeição Cristã. Todos os e-books gratuitos estão no site da Metodista de Vila Isabel.

Sobre a doutrina, Wesley menciona o que não significa perfeição cristã. Não significa que se possa ficar isento de ignorância, ou seja, a pessoa perfeita não conhecerá os desígnios de Deus por completo. Isso não se dará. Não significa que conhecerá o Senhor perfeitamente e que saberá de detalhes quanto à Sua vinda e afins. Perfeição, conforme esta doutrina, não implica em impecabilidade, mas sim, como será mostrado, que o pecado voluntário não faz parte do nascido de novo que alcançou a perfeição.

O erro se faz presente na pessoa perfeita (por mais que pareça contraditório). Wesley cita que "conhecemos em parte" (1 Co 13:9), logo, podemos errar na outra parte que não conhecemos. Wesley assevera: "Mas, em coisas não essenciais à salvação, erram, e erram frequentemente" (Sermão 40, parte 1, ponto 4). Os que alcançaram a perfeição não possuem a interpretação correta de todas as passagens das Escrituras e não estão livres de fraquezas não morais como morosidade de entendimento, obtsusidade ou confusão de compreensão, incoerência de pensamento e afins (Sermão 40, parte 1, ponto 7). Muito menos há uma libertação das tentações.

Sobre o que é perfeição cristã, Wesley aborda que os justificados têm o seu velho homem crucificado, seu corpo do pecado destruídos (Rm 6:6) e estão mortos para o pecado (Rm 6:11). Wesley enfatiza que temos que levar em conta seriamente esses versos. Efésios 4:13, Lucas 6:40, Fp 3:15 abordam que somos perfeitos. Jesus, em Mateus 5:48, ordena que sejamos perfeitos como o Pai é perfeito.

Sobre Mateus 11:11: " Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele", Wesley entende que até João Batista, ou seja, até o surgimento da Graça, o menor cristão é maior que João Batista. Já, entre os judeus, João Batista foi o maior. Qualquer cristão que viva no período da Graça é maior que João Batista, o maior do período pré-Graça. 

Sobre Salomão ter escrito que não há homem que não peque (1 Re 8:46; 2 Cr 6:36), Wesley entende, como acima, que, no período da Lei, não havia homem que não pecasse, pois a Graça de Cristo não havia surgido na Terra. 

Sobre Paulo (no caso da discussão com Barnabé) e Pedro (no caso de sua dissimulação em Gálatas), não há indício escriturístico de que eles pecaram necessariamente. Eles pecaram, sem dúvida, mas não seguiram pecando, pois entrariam em contradição com João em 1 Jo 5:18. 

Wesley enfatiza que Cristo nos purifica de todo pecado, conforme 1 João 1:7. Logo, não há um pecado não purificado. Wesley enfatiza que "um cristão é perfeito ao ponto de não cometer pecado" (Sermão 40, parte 2, ponto 20).

Por fim, Wesley assevera que Jesus não teve e não tem pensamentos maus. Então, como Jesus mesmo disse que "todo que é perfeito é como seu Senhor" (Lc 6:40), 1. Somos perfeitos. 2. Somos como o Senhor, logo. 3. Não devemos ter pensamentos maus. 

Wesley, e todos os crentes na perfeição cristã, deleitam-se nesta doutrina porque nos estimula à santidade. Não há espaços para legalismos, pois Wesley e os wesleyanos seguem o princípio moral da santidade, e não o aspecto regimental de culturas.

Em Cristo,

Marlon Marques

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Resumo da Teologia Wesleyana

   


O texto abaixo, do teólogo wesleyano Theodore Runyon, elucida sucintamente a doutrina wesleyana da Perfeição Cristã e também aborda a justificação e a santidade na doutrina wesleyana. Confiram!

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A maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua habilidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que supere o presente. Ela não está cega as às forças negativas, no entanto não as considera conseqüências inevitáveis do pecado original, mas exatamente aquilo que pode ser vencido.

Wesley ensina que Deus não apenas justifica, mas que o objetivo de Deus é nos criar novamente, transformar-nos, restaurar-nos a saúde e o nosso papel como imagem Sua. 
Esta teologia busca o poder criativo e transformador na vida neste mundo. Busca transformação no aqui-e-agora (Hb 6.1)

O alvo é que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.13). É assim que a criatura deve glorificar o criador.

A Salvação não é apenas a reconciliação com Deus, mas a restauração segundo a imagem de Deus.
Nossa Grande Salvação envolve o processo transformador que visa tanto a superação do pecado como uma vida cheia de amor.

Três fatores indispensáveis na Regeneração: 
a) Graça, que é a iniciativa divina de renovar a criatura e o mundo
b) Fé, a resposta humana à capacitação que reconstitui a imagem relacional
c) Sinergia, a imagem renovada agindo em consonância com o Criador para partilhar seu poder renovador com o mundo.

A salvação não é uma bênção que se encontre apenas do outro lado da morte. As Escrituras colocam no presente: “Sois salvos” (Ef 2.8) Não é uma coisa remota, é algo presente, que tem início neste mundo. Trata-se de toda obra de Deus, desde o primeiro toque da graça até a consumação na glória.

O objetivo de Deus não é meramente nos revestir de uma justiça que permanece exterior a nós mesmos, mas conceder e implantar a justiça de Cristo em nós de tal modo que ela cresça e se expanda.
A justiça do cristão não é de sua própria feitura, não é inerente, mas produto do Espírito de Cristo. 
A nova criatura não pode permanecer a mesma!

A humanidade feita à imagem de Deus, como criatura chamada a recebê‑lo, a interagir com ele e a refleti‑lo no mundo, agora pode viver esse chamado por meio da nova relação com Deus, possibilitada por Jesus Cristo e capacitada e levada adiante pelo Espírito transformador.

O que diferencia a teologia de Wesley é sua capacidade de manter unidos, numa associação funcional, dois fatores absolutamente importantes na vida cristã que, muitas vezes, têm estado desassociados: a renovação desta relação (justificação) e a vivência dela (santificação), nenhuma das quais é possível sem a outra. 

A aceitação por parte de Deus possibilita uma vida de fé e confiança. O que Wesley acrescentou a essa mensagem foi a boa‑nova de que essa aceitação divina é vivenciável, de que a "graça é perceptível”. 

A imagem renovada, é testemunho na sociedade, um reflexo para os outros da própria bondade de Deus, e portanto pode realizar os propósitos, aos quais ele a chama, somente num contexto social. 

Vossa própria natureza é dar sabor a tudo quanto vos rodeia. É da natureza do divino sabor que existe em vós expandir-se em tudo quanto tocardes, difundir-se por todos os lados, atingindo a todos aqueles em cujo meio estiverdes. 

Esta é a grande razão pela qual a Providência de Deus vos misturou com os outros homens, de modo que as graças, quaisquer que sejam, que de Deus houverdes recebido, possam ser comunicadas através de vós ao demais homens.

Wesley entende que o amor é o supremo alvo do processo de santificação. Quando os céus e a terra tiverem passado, ele permanecerá ainda. Porque só “o amor jamais acaba”.

Gálatas 5.6: “A fé que atua pelo amor” é o comprimento, a largura, a profundidade e a altura da perfeição cristã”. E ele nunca se cansava de lembrar a seus leitores que a perfeição, do modo como a compreendia, não é nada mais nada menos que “amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos”. 

Amar a Deus envolve “entregar a Ele todo o nosso coração... devotar não uma parte, mas toda a nossa alma, corpo e substância a Deus”. Amar ao próximo envolve ter aquele “mente que houve em Cristo, capacitando-nos a andar como Cristo andou”, partilhando seu espírito na autodoação e no serviço aos outros. Mais uma vez, ele resume “o todo da perfeição bíblica” como “puro amor enchendo o coração e governando todas as palavras e ações”. (Wesley)

Tem sua base na perfeição daquilo que recebemos. O amor de Deus é perfeito. Não há amor mais supremo, mais completo, mais santo e mais doador do que aquele que recebemos do divino Doador. Este amor pe pura graça, e Deus o partilha com aqueles que são chamados a serem a sua imagem. Nós recebemos e participamos deste amor perfeito.

No entanto, como imagem de Deus somos chamados não apenas a receber, mas a refletir esse amor perfeito ao mundo. Compartilhá-lo com nossos semelhantes – e compartilhá-lo perfeitamente, isto é, de forma tal que ele possa ser recebido e apropriado pelos outros como um amor cuja origem é Deus.
Isto significa que a perfeição não é tanto para a pessoa, mas para o cumprimento da vocação à qual somos chamados.

Nossa santificação está associada e voltada à santificação do mundo, e como tal é um projeto sempre sinalizador e nunca acabado, muito embora o amor que redirecionamos seja completo, já que sua origem é divina. 

... Este amor deve ser estendido aos nossos inimigos e até mesmos aqueles que julgamos ser inimigos de Deus. Aos inimigos de Deus? mas por que? Porque Deus os ama e seu coração anseia por vencer o seu afastamento. Por isso, para aqueles que são canais do amor de Deus, não há como distanciar dos pecadores porque são exatamente eles que o amor divino está buscando...

... O amor não pode ser apropriado como uma idéia abstrata; ele deve ser encontrado, é preciso haver participação nele...

... Wesley entendia a perfeição em termos do amor, e o amor não pode ser encontrado sem transformar a pessoa que o recebe. Enquanto a justiça pode ser legalmente “imputada” sem ser “concedida”, o amor só pode ser recebido se for concedido e se houver participação nele. Portanto, o amor de Deus transforma inevitavelmente a pessoa que o recebe. Nós nos tornamos “co-participantes da natureza divina” (2 Pe 1.4)... Tal participação os capacita a cumprir o chamado de refletir o amor de Deus no mundo.

A perfeição do amor de Deus é o ponto de partida mais viável para a reinterpretação da doutrina da perfeição hoje. Isso previne contra a preocupação com o eu e com a perfeita impecabilidade que prejudicou algumas interpretações do passado e está mais de acordo com o próprio desejo de Wesley de evitar o termo “perfeição impecável”. E ela nos abre à participação na única fonte genuína de santificação: o amor e a graça do nosso Criador-Redentor. 

A “renovação da imagem de Deus” foi, para Wesley, o modo preferido de caracterizar a santificação e serve para descrever tanto a dimensão individual quanto social da salvação. A humanidade renovada à imagem de Deus não apenas se torna uma nova criação, mas é chamada a manifestar ao mundo aquele amor perfeito e assim proclamar e mediar o amor divino e seu poder criador. 

A renovação da imagem também torna manifesta a relação entre a justificação, com a obra de Cristo por nós, e a santificação, como a obra do Espírito em nós. Ambas sustentam e possibilitam essa renovação, e a “grande salvação” torna-se genuinamente trinitária. 

A renovação da imagem também nos ajuda a explicar como a santificação é um processo que começa com o novo nascimento da regeneração, mas continua em direção à plenitude da perfeição, com possibilidades cada vez maiores de refletir a perfeição do amor divino, expulsando o pecado e renovando a criatura e o mundo.

(Extaído do livro de Theodore Runyon – “A Nova criação – A teologia de João Wesley hoje” – Editeo) 

fonte: http://www.metodistalivre.org.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=174&sg=0&form_search=&pg=1&id=604