quinta-feira, 21 de maio de 2015

Graça Preveniente: Por Que Eu Sou um Metodista e Evangélico



Timothy Tennet
      Em primeiro lugar, eu sou um metodista porque acredito na graça preveniente. Para Wesley, a vida espiritual não tem esperança de um começo sem ação prévia de Deus em favor do pecador. A graça preveniente é um termo coletivo para todos os modos pelos quais a graça de Deus entra em nossa vida antes da conversão. A graça preveniente significa, literalmente, "a graça que vem antes" e capta bem o que a igreja primitiva chamou de evangelica preparatio , ou seja, a preparação para a boa notícia. Uma das maneiras em que a tradição Metodista Wesleyana por vezes é mal compreendida por pessoas de outras tradições é em relação a nossa doutrina do pecado. Pode vir como uma surpresa para alguns de nossos leitores reformados que a doutrina da depravação total (o famoso T no calvinista TULIP) é compartilhada por wesleyanos e metodistas tão ardentemente como por calvinistas. Metodistas, como nossos irmãos e irmãs reformadas, acreditam que a salvação é impossível sem um ato livre e antes de Deus em favor do pecador. Depravação total significa que estamos mortos em nossos pecados e, portanto, não podemos nos ajudar ou nos assistir a nós mesmos. O pecado não é meramente uma "bola de corrente" que impede o nosso progresso. Estamos mortos em nossos delitos e pecados (Efésios 2:5). Metodistas afirmam esta verdade. No entanto, metodistas levam muito a sério a tensão teológica que existe entre, por um lado, o ensino claro da Escritura que estamos mortos em nossos pecados e totalmente desprovido de qualquer capacidade de nos salvar (Ef 2:1, Col 1: 21, 2:13; Lc 15:24) e a chamada universal do Evangelho que nos obriga a "vir" (Mateus 11:28), "arrepender" (Atos 02:38), "acreditar" (Atos 16 : 31) e toda uma série de outros comandos. Todos que nos chamam a atos específicos de fé e obediência. Como as pessoas espiritualmente mortas não têm capacidade de resposta, é claro que Deus está concedendo a graça de inúmeras formas em nossas vidas antes de nossa regeneração ou conversão. A graça preveniente fornece a ligação entre a depravação humana e o chamado universal. A diferença importante entre metodistas e cristãos reformados não está no fato da depravação, mas sobre se qualquer ação prévia de Deus é limitada aos eleitos (Expiação Limitada - o L no TULIP) ou é universal. Apesar do enorme respeito que temos por João Calvino, metodistas não acreditam que a doutrina calvinista da expiação limitada se ajusta aos dados bíblicos tão bem como a doutrina da graça preveniente. Os metodistas acreditam que Deus universalmente agiu em nome da caída raça depravada de Adão. Nós acreditamos que Cristo, como o Segundo Adão, resgatou a raça humana com um ato de graça que lhes confere a capacidade de aceitar ou rejeitar a boa notícia do Evangelho, quando é proclamado. Wesleyanos acreditam que, se a doutrina da depravação humana não está ligada à ação de Deus na graça preveniente, ele cria um conflito teológico insustentável que, pelo menos potencialmente, faz com que Deus seja injusto ou o autor do mal, nem de que se encaixa com uma visão bíblica de Deus. Pois, se uma pessoa espiritualmente morta é incapaz de responder ao chamado de Deus, então, com que base é que ele ou ela responsabilizado pelo pecado? A graça preveniente demonstra como podemos ser totalmente depravado, mas dada a graça de responder e, se não responder, pode ser plenamente responsabilizados por nossa descrença.
      Para metodistas, a graça preveniente é a ponte entre a depravação humana e o livre exercício da vontade humana. A graça preveniente levanta a raça humana para fora da sua depravação e nos concede a capacidade de responder mais à graça de Deus. Jesus declarou que "ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (João 6:44). Metodistas entendem este texto como referindo-se a um desenho divino enraizado no Deus Uno e Trino, que precede a nossa justificação. É ato de favor imerecido de Deus. É a luz de Deus " que ilumina todo o homem" (João 1: 9), elevando-nos e dando a raça humana a capacidade de exercer a nossa vontade e responder à graça de Cristo. Thomas Oden coloca muito bem quando ele diz que "a vontade divina sempre 'vem antes' ou 'pré-vem' (lidera o caminho) à vontade humana, de modo que a vontade humana pode escolher livremente de acordo com a vontade divina. "1
      O pensamento wesleyano afirma que Deus tomou a iniciativa de criar uma capacidade universal para a raça humana receber sua graça. Muitos, é claro, ainda resistem à sua vontade e persistem em rebelião contra Deus. O pensamento wesleyano é, na verdade, uma posição intermediária entre uma visão pelagiana (que faz de cada pessoa um Adão e não admite nenhuma natureza pecaminosa ou escravidão devido a natureza de Adão) e da visão reformada (que afirma expiação limitada). O que wesleyanos dizem com livre-arbítrio é realmente "vontade livre", ou seja, um testamento em cativeiro que foi libertado por um ato livre da graça de Deus. Naturalmente, não é livre em todos os aspectos possíveis, uma vez que são todos influenciados pelos efeitos da Queda de muitas maneiras, mas agora temos uma capacidade de restauração, o que permitiu nosso coração, mente e vontade de responder à graça de Deus. Eu amo o fato de que metodistas acreditam que mesmo que você vá até os confins da terra com o evangelho, você sempre vai achar que Deus precede você e, com efeito, "supera você lá!" Talvez a graça preveniente é resumida melhor pela famosa interrupção de um missionário que estava lecionando na África sobre como os missionários levaram o Evangelho à África. O crente africano interrompeu e disse: "Os missionários não levam o Evangelho a África. Deus trouxe os missionários para a África." Este comentário perspicaz muda a ênfase para a agência anterior de Deus e na grande missio Dei (missão de Deus), pela qual Deus é sempre o primeiro ator no grande drama da redenção. Wesleyanos abraçam plenamente a importância da decisão humana e o exercício da vontade. No entanto, isso não é possível sem uma ação prévia de Deus.
. 1 Thomas Oden, Teologia Sistemática vol, 2, A Palavra da Vida (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 2001), 189. Salvo disposição em contrário, este blog usa a Nova Versão Internacional.
Tradução: Marlon Marques
Fonte: http://timothytennent.com/2011/07/05/prevenient-grace-why-i-am-a-methodist-and-an-evangelical-part-2/

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um Retorno ao Metodismo Primitivo

        O metodismo iniciou, diferente do que alguns pensam, não no Clube Santo, onde estavam reunidos John Wesley, Charles Wesley e George Whitefield, mas sim depois da conversão súbita e plena na rua Aldersgate de John Wesley entre os morávios. Isso é corroborado pelo estudioso metodista Gonzalo Baéz Camargo. Neste período, Wesley, o principal líder metodista, organizou as sociedades metodistas para cumprirem a missão de Cristo, que é evangelizar, pregando libertação não só espiritual, mas também social. Isso, como se sabe na história da Igreja, foi realizado por Wesley e outros metodistas, não só de seu tempo, como em tempos posteriores. Tudo isso, claro, pela Graça de Deus.
        A questão é que, décadas depois da morte de Wesley, muitos metodistas enfatizaram mais o aspecto social de Wesley. É bem sabido que Wesley focava nas obras de misericórdia, que tinham a função de vestir os nus, alimentar os pobres, visitar os enfermos, pregar melhores condições de trabalho e afins. Esqueceram-se, porém, alguns metodistas não só do século XIX, mas também dos séculos XX e XXI, que Wesley não fazia somente isso, mas também anunciava que essas pessoas estavam mortas em seus delitos e pecados. A salvação espiritual foi e é relegada à condição de mero simbolismo. É preciso corrigir isso em algumas igrejas metodistas.
        Por outro lado, temos igrejas metodistas que estão em um processo de "neopentecostalismo" grande. Não é nem mais possível asseverar que estão seguindo apenas a parte da pregação da salvação espiritual enfatizada por Wesley. Esses metodistas estão não só saindo do metodismo original, mas estão saindo do cristianismo autêntico. Pregar nos cultos campanhas de vitória, barganhas com Deus, autoajuda, pregações voltadas para uma vida sem dores e afins, são claros indícios de um metodismo desviado. É preciso que esse metodismo seja renovado à luz do metodismo primitivo de Wesley, Fletcher e outros pais do metodismo. Do contrário, que usem outro nome que não seja "Igreja Metodista".
        A igreja metodista que segue o padrão do metodismo primitivo e que, de acordo com este, é o entendimento mais adequado com as Escrituras, é a igreja que apregoa o Evangelho de salvação espiritual e sua preocupação em viver o Reino, profetizando contra toda injustiça social, econômica e religiosa (contra charlatões, por exemplo). A igreja metodista fiel aos princípios do metodismo primitivo não deixa de enfatizar que, se as pessoas morrerem em seus pecados, perecerão eternamente. Pecados são pecados mesmos, sejam espirituais ou sociais. Na verdade, tudo é espiritual, pois se você peca no social, é um indício de que você está mal espiritualmente. 
     A você que pensa que as igrejas metodistas são liberais teologicamente ou são igrejas de autoajuda, conheça o metodismo primitivo de Wesley, Fletcher, Asbury e outros pais metodistas e saiba que, à luz da Bíblia, ela é uma igreja neotestamentária de fato. Desvios dos princípios primitivos de uma igreja acontecem em todas, sejam batistas, presbiterianas, anglicanas, luteranas e até com pentecostais. O que se deve fazer é sempre apontar os desvios e seguir os parâmetros bíblicos.

        Graça e Paz!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Justificação X Santificação - Analisando suas Diferenças

      A interpretação incorreta da diferença entre esses dois conceitos gerou no decorrer do tempo duas mazelas ao movimento evangélico. Uma foi a desconsideração e apatia total da importância da santificação na vida cristã por não saberem fazer a distinção entre justificação e santificação e, por outro lado um legalismo farisaico na tentativa de vivê-lo a força de seu próprio braço e confundir santidade com o cumprimento de algumas regras sociais. A tradição wesleyana foi a que conseguiu apresentar de maneira bíblica e coerente a relação e a diferença entre justificação e a santificação e queremos de maneira introdutória expressar isso.

     Vejamos algumas distinções entre Justificação e Santificação:

1. A Justificação refere-se à obra de Cristo efetuada "por nós"; enquanto que a Santificação é a obra de Cristo efetuada "em nós" pelo Espírito Santo.

2. A Justificação é um ato judicial (externo) que nos torna justos diante de Deus; a Santificação é uma transformação espiritual realizada em nossos corações (interno).

3. A Justificação é uma transformação relativa, pois opera uma mudança de relação do estado de condenação para um estado de favor diante de Deus; enquanto a Santificação, é uma mudança interna do pecado para a santidade.

4. A Justificação nos dá a remissão dos pecados; a Santificação limpa do coração o pecado original ou a depravação herdada.

5. A Justificação remove a culpabilidade do pecado; a Santificação destrói-lhe o poder.

6. A Justificação torna possível a adoção na família de Deus; a Santificação restaura a imagem de Deus.

7. A Justificação dá-nos o direito de entrada no céu; a Santificação torna-nos aptos para o céu.

8. A Justificação logicamente precede a Santificação que, no seu estado inicial, lhe é concomitante.

9. A Justificação é um ato completo e instantâneo e, por conseguinte, não se realiza aos poucos ou gradativamente; a Santificação é marcada por progresso, no sentido de que a santificação parcial ou inicial (regeneração) ocorre no tempo da justificação e a inteira santificação vem depois e mesmo depois dessa a santificação permanece contínua até a glorificação que é a santificação final.

ibliografia Consultada

Introdução a Teologia Cristã de Wiley e Culbertson. CNP - Casa Nazarena de Publicações.

Dos Apóstolos a Wesley de William M. Greathouse. CNP - Casa Nazarena de Publicações. 


Conceitos Errados a Respeito da Perfeição Cristã


    O conceito bíblico e wesleyano de perfeição cristã é um dos aspectos doutrinários que mais tem sido mal interpretado e negligenciado em sua prática. Uma das maneiras de nós apreendermos um conceito é desfazendo alguns mitos que existem sobre ele e dizendo o que ele não é. É isso que proponho fazer nesse primeiro texto sobre o assunto.

     1. A Perfeição Cristã não significa Perfeição Absoluta. A perfeição absoluta só pertence a Deus. Todo bem e toda dádiva vem do Pai das Luzes (Tiago 1:17) e bom só existe um que é Deus (Mateus 19:17). Logo, toda é qualquer bondade ou perfeição só pode ser derivada de Deus. Sendo assim, só Deus é perfeito, mas as Suas criaturas podem também ser perfeitas em um sentido relativo. Veremos em outro artigo essa questão de maneira melhor quando conceituarmos o termo.

      2. A Perfeição Cristã não significa Perfeição Angélica. Os santos anjos de Deus são seres que jamais caíram e, portanto, retêm as suas faculdades nativas, tais como receberam. Não cometem erros, como acontece ao homem no seu estado atual de debilidade e fraqueza. Têm uma perfeição impossível de ser alcançada pela humanidade.

      3. A Perfeição Cristã não significa Perfeição Adâmica. O ser humano foi feito um pouco menor que os anjos (Salmos 8:5) e, sem dúvida, no seu estado original possuía uma perfeição desconhecida ao homem na sua presente condição de existência no mundo.

     4. A Perfeição Cristã não significa Perfeição de Conhecimento. Não só foi pervertida a vontade do homem e alienados os seus afetos na queda, mas até o seu intelecto foi obscurecido (o que chamamos de efeitos noéticos da queda). Por isso, deste entendimento defeituoso emanam opiniões errôneas com respeito a muitos assuntos, levando, por sua vez, a falsos juízos e a inclinações erradas dos afetos.

      5. A Perfeição Cristã não significa Imunidade a Tentação ou a Possibilidade de Pecar. A tentação e a susceptibilidade ao pecado são essenciais ao nosso estado de provação. O Nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado da mesma forma em que nós somos e, todavia, não cometeu pecado.


Bibliografia Consultada

Introdução a Teologia Cristã de Wiley e Culbertson. CNP - Casa Nazarena de Publicações.

Dos Apóstolos a Wesley de William M. Greathouse. CNP - Casa Nazarena de Publicações

     

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O Legado do Wesleyanismo

   

     John Wesley foi altamente influenciado pelos morávios, místicos anglo-católicos, pais da Igreja e pela teologia dos reformadores. No dia 24 de maio de 1738, aos 24 anos de idade, ao ler o prefácio do comentário de Lutero da epístola de Paulo aos romanos, John Wesley converteu-se ao Evangelho. Seu irmão, Charles Wesley, havia se convertido um pouco tempo antes. Muitos acham que eles já eram convertidos antes, pois sempre eram zelosos e temiam a Deus. Outros creem, de fato, que eles se converteram no período indicado.

     Fato inegável é que os Wesley influenciaram diversas pessoas, movimentos e igrejas até os dias hodiernos. A começar pelas próprias igrejas metodistas, igrejas diretas do movimento metodista que os irmãos Wesley fundaram. Também a igreja do Nazareno, Exército de Salvação e Holiness são oriundas dos ensinamentos de Wesley. O movimento de Keswick é oriundo de avivalistas holiness e metodistas. Outro grupo oriundo dos movimentos wesleyanos, que enfatizavam a doutrina da perfeição cristã e a inteira santificação, é o pentecostalismo. Os pentecostias acrescentaram o batismo no Espírito Santo aos ensinamentos wesleyanos. Andrew Murray e A. B. Simpson são exemplos de ministros reformados que tornaram-se wesleyanos devido a crerem na inteira santificação e perfeição cristã. Fora incontáveis avivamentos no Reino Unido, Estados Unidos, América latina, África, Ásia e Oceania promovidos por wesleyanos.

     É mais do que necessário todos os wesleyanos, sejam de que igrejas forem, conhecerem suas origens. É mister isso, pois é um linda história. Um vida com o Senhor e uma vida de serviço a Deus e ao próximo são marcas dos wesleyanos. A ênfase tanto no aspecto espiritual quanto no aspecto social é evidente no wesleyanismo. Só para citar um exemplo, a abolição da escravatura foi devido à influência de John Wesley junto a William Wilberforce, que trabalhou incansavelmente até que a escravidão fosse abolida no Reino Unido e depois no mundo!

     Graça e Paz!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Resumo da Teologia Wesleyana

   


O texto abaixo, do teólogo wesleyano Theodore Runyon, elucida sucintamente a doutrina wesleyana da Perfeição Cristã e também aborda a justificação e a santidade na doutrina wesleyana. Confiram!

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A maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua habilidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que supere o presente. Ela não está cega as às forças negativas, no entanto não as considera conseqüências inevitáveis do pecado original, mas exatamente aquilo que pode ser vencido.

Wesley ensina que Deus não apenas justifica, mas que o objetivo de Deus é nos criar novamente, transformar-nos, restaurar-nos a saúde e o nosso papel como imagem Sua. 
Esta teologia busca o poder criativo e transformador na vida neste mundo. Busca transformação no aqui-e-agora (Hb 6.1)

O alvo é que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.13). É assim que a criatura deve glorificar o criador.

A Salvação não é apenas a reconciliação com Deus, mas a restauração segundo a imagem de Deus.
Nossa Grande Salvação envolve o processo transformador que visa tanto a superação do pecado como uma vida cheia de amor.

Três fatores indispensáveis na Regeneração: 
a) Graça, que é a iniciativa divina de renovar a criatura e o mundo
b) Fé, a resposta humana à capacitação que reconstitui a imagem relacional
c) Sinergia, a imagem renovada agindo em consonância com o Criador para partilhar seu poder renovador com o mundo.

A salvação não é uma bênção que se encontre apenas do outro lado da morte. As Escrituras colocam no presente: “Sois salvos” (Ef 2.8) Não é uma coisa remota, é algo presente, que tem início neste mundo. Trata-se de toda obra de Deus, desde o primeiro toque da graça até a consumação na glória.

O objetivo de Deus não é meramente nos revestir de uma justiça que permanece exterior a nós mesmos, mas conceder e implantar a justiça de Cristo em nós de tal modo que ela cresça e se expanda.
A justiça do cristão não é de sua própria feitura, não é inerente, mas produto do Espírito de Cristo. 
A nova criatura não pode permanecer a mesma!

A humanidade feita à imagem de Deus, como criatura chamada a recebê‑lo, a interagir com ele e a refleti‑lo no mundo, agora pode viver esse chamado por meio da nova relação com Deus, possibilitada por Jesus Cristo e capacitada e levada adiante pelo Espírito transformador.

O que diferencia a teologia de Wesley é sua capacidade de manter unidos, numa associação funcional, dois fatores absolutamente importantes na vida cristã que, muitas vezes, têm estado desassociados: a renovação desta relação (justificação) e a vivência dela (santificação), nenhuma das quais é possível sem a outra. 

A aceitação por parte de Deus possibilita uma vida de fé e confiança. O que Wesley acrescentou a essa mensagem foi a boa‑nova de que essa aceitação divina é vivenciável, de que a "graça é perceptível”. 

A imagem renovada, é testemunho na sociedade, um reflexo para os outros da própria bondade de Deus, e portanto pode realizar os propósitos, aos quais ele a chama, somente num contexto social. 

Vossa própria natureza é dar sabor a tudo quanto vos rodeia. É da natureza do divino sabor que existe em vós expandir-se em tudo quanto tocardes, difundir-se por todos os lados, atingindo a todos aqueles em cujo meio estiverdes. 

Esta é a grande razão pela qual a Providência de Deus vos misturou com os outros homens, de modo que as graças, quaisquer que sejam, que de Deus houverdes recebido, possam ser comunicadas através de vós ao demais homens.

Wesley entende que o amor é o supremo alvo do processo de santificação. Quando os céus e a terra tiverem passado, ele permanecerá ainda. Porque só “o amor jamais acaba”.

Gálatas 5.6: “A fé que atua pelo amor” é o comprimento, a largura, a profundidade e a altura da perfeição cristã”. E ele nunca se cansava de lembrar a seus leitores que a perfeição, do modo como a compreendia, não é nada mais nada menos que “amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos”. 

Amar a Deus envolve “entregar a Ele todo o nosso coração... devotar não uma parte, mas toda a nossa alma, corpo e substância a Deus”. Amar ao próximo envolve ter aquele “mente que houve em Cristo, capacitando-nos a andar como Cristo andou”, partilhando seu espírito na autodoação e no serviço aos outros. Mais uma vez, ele resume “o todo da perfeição bíblica” como “puro amor enchendo o coração e governando todas as palavras e ações”. (Wesley)

Tem sua base na perfeição daquilo que recebemos. O amor de Deus é perfeito. Não há amor mais supremo, mais completo, mais santo e mais doador do que aquele que recebemos do divino Doador. Este amor pe pura graça, e Deus o partilha com aqueles que são chamados a serem a sua imagem. Nós recebemos e participamos deste amor perfeito.

No entanto, como imagem de Deus somos chamados não apenas a receber, mas a refletir esse amor perfeito ao mundo. Compartilhá-lo com nossos semelhantes – e compartilhá-lo perfeitamente, isto é, de forma tal que ele possa ser recebido e apropriado pelos outros como um amor cuja origem é Deus.
Isto significa que a perfeição não é tanto para a pessoa, mas para o cumprimento da vocação à qual somos chamados.

Nossa santificação está associada e voltada à santificação do mundo, e como tal é um projeto sempre sinalizador e nunca acabado, muito embora o amor que redirecionamos seja completo, já que sua origem é divina. 

... Este amor deve ser estendido aos nossos inimigos e até mesmos aqueles que julgamos ser inimigos de Deus. Aos inimigos de Deus? mas por que? Porque Deus os ama e seu coração anseia por vencer o seu afastamento. Por isso, para aqueles que são canais do amor de Deus, não há como distanciar dos pecadores porque são exatamente eles que o amor divino está buscando...

... O amor não pode ser apropriado como uma idéia abstrata; ele deve ser encontrado, é preciso haver participação nele...

... Wesley entendia a perfeição em termos do amor, e o amor não pode ser encontrado sem transformar a pessoa que o recebe. Enquanto a justiça pode ser legalmente “imputada” sem ser “concedida”, o amor só pode ser recebido se for concedido e se houver participação nele. Portanto, o amor de Deus transforma inevitavelmente a pessoa que o recebe. Nós nos tornamos “co-participantes da natureza divina” (2 Pe 1.4)... Tal participação os capacita a cumprir o chamado de refletir o amor de Deus no mundo.

A perfeição do amor de Deus é o ponto de partida mais viável para a reinterpretação da doutrina da perfeição hoje. Isso previne contra a preocupação com o eu e com a perfeita impecabilidade que prejudicou algumas interpretações do passado e está mais de acordo com o próprio desejo de Wesley de evitar o termo “perfeição impecável”. E ela nos abre à participação na única fonte genuína de santificação: o amor e a graça do nosso Criador-Redentor. 

A “renovação da imagem de Deus” foi, para Wesley, o modo preferido de caracterizar a santificação e serve para descrever tanto a dimensão individual quanto social da salvação. A humanidade renovada à imagem de Deus não apenas se torna uma nova criação, mas é chamada a manifestar ao mundo aquele amor perfeito e assim proclamar e mediar o amor divino e seu poder criador. 

A renovação da imagem também torna manifesta a relação entre a justificação, com a obra de Cristo por nós, e a santificação, como a obra do Espírito em nós. Ambas sustentam e possibilitam essa renovação, e a “grande salvação” torna-se genuinamente trinitária. 

A renovação da imagem também nos ajuda a explicar como a santificação é um processo que começa com o novo nascimento da regeneração, mas continua em direção à plenitude da perfeição, com possibilidades cada vez maiores de refletir a perfeição do amor divino, expulsando o pecado e renovando a criatura e o mundo.

(Extaído do livro de Theodore Runyon – “A Nova criação – A teologia de João Wesley hoje” – Editeo) 

fonte: http://www.metodistalivre.org.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=174&sg=0&form_search=&pg=1&id=604

terça-feira, 1 de julho de 2014

A Bíblia e John Wesley




O estudioso wesleyano Randy Maddox escreveu um excelente artigo sobre a forma como John Wesley estudava, interpretava e pregava a partir da Bíblia. É intitulado: "A Regra da Fé, Prática, e Esperança Cristã: John Wesley sobre a Bíblia (1)". Este artigo é bom e vale a pena ler.

Aqui está um rápido resumo:

  • Wesley nunca pregava baseando-se nos apócrifos [livros chamados de deuterocanônicos para os católicos romanos], apesar de ter sido incluída na KJV [Versão King James] durante seu tempo. 
  • Os irmãos Wesley (John e Charles) utilizaram uma série de traduções incluindo: a Bíblia de Genebra, a Bíblia alemã de Lutero e outros. 
  • Os irmãos Wesley estudaram os textos grego e hebraico, consideraram as línguas primárias mais autoritárias do que a KJV. 
  • Wesley firmemente considerou que a Escritura foi inspirada, no entanto, ele acreditava que não era sempre exata sobre "assuntos tangenciais" (genealogias, por exemplo). Wesley argumentou que a Bíblia era "infalivelmente verdadeira". A palavra "inerrância" não estava em uso no seu tempo. 
  • Wesley acreditava que a inspiração do Espírito Santo foi fundamental para a compreensão da Bíblia. "Precisamos do mesmo Espírito para compreender a Escritura, que permitiu que os santos homens do passado escrevessem-na." 
  • Wesley pregou quase todo o cânon bíblico, incluindo extensa pregação do Antigo Testamento. Há registros (2) que mostram que ele pregava a partir de todos os livros, exceto: Ester, Cântico dos Cânticos, Obadias, Naum, Sofonias, Filemom e 3 João. 
  • Wesley lia a Bíblia em associação com os outros. "Se alguma dúvida ainda permanece (compreensão de uma passagem difícil), eu consulto aqueles que são experientes nas coisas de Deu e, em seguida, os escritos dos que estão mortos, porque eles ainda falam." 
  • Wesley valorizava os escritos dos antigos escritores cristãos, particularmente aqueles dos três primeiros séculos da Igreja. 
  • Wesley lia a Bíblia em associação com a "regra de fé". Ele abraçou fortemente o Credo Apostólico. O que a igreja histórica tinha falado sobre determinadas matérias (como a Trindade) foi importante no seu pensamento. 
  • Wesley focava no valor e na natureza da criação. Ele acreditava que Deus queria redimir toda a criação. 
  • Wesley estava convencido de que o amor de Deus por toda a humanidade era o ensinamento central da escritura. Ele descreveu 1 João 4:19 como "a soma de todo o Evangelho". Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro. Ele chamou 1 João de "o compêndio de todas as Sagradas Escrituras". Ele também frequentemente referia Salmo 145:9. O Senhor ama a todos, e Sua misericórdia está sobre todas as Suas obras. 
  • Passagens favoritas de Wesley (como evidenciado pela frequência que ele pregava a partir delas) eram o livro de I João, o livro de Romanos, 1 Coríntios 13, e Mateus 5-7 (O Sermão da Montanha). 
  • Wesley lia a Bíblia porque era o guia para a fé cristã, o guia para o comportamento cristão e esperança e sustento para o crente.
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(1) Randy Maddox,  The Rule of Christian Faith, Practice, and Hope: John Wesley on the Bible, Methodist Review, Volume 3, 2011 (Free registration required).

(2) O Centro de Estudos da Tradição Wesleyana compilou um registro de todas as passagens da Escritura que John Wesley pregou a partir do que temos registro . Para as fontes eles usaram revistas de Wesley, obras e cartas.

FONTE: http://wesleyanarminian.wordpress.com/2011/04/14/the-bible-and-john-wesle/