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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Comentários sobre o Artigo de Heber Carlos Campos chamado A Graça Preveniente na Tradição Arminiana/Wesleyana (Parte 2)


           Há cerca de dois anos escrevi, aqui mesmo neste blog, uma pequena resenha não acadêmica acerca do pertinente artigo do Dr. Heber Campos chamado A Graça Preveniente na Tradição Arminiana/Wesleyana (Parte 1) publicado na revista Fides Reformata.. Você pode conferir aqui. Nesta outra breve resenha comentarei sobre a parte dois deste artigo. Tanto na minha resenha anterior quanto nesta eu ressalto a excelente pesquisa do Dr. Campos bem como seu tom amistoso para com a rica tradição armínio-wesleyana, da qual faço parte como pastor ordenado da Igreja Metodista Livre. Vamos aos pontos por mim abordados do seu artigo.
           Campos afirma, logo no início, que, de modo similar no calvinismo, a iniciativa no arminianismo/wesleyanismo sempre é de Deus. Silas Daniel destaca muito bem essa questão, afirmando que “o uso do termo ‘preveniente’ ou ‘precedente’ atrelado ao vocábulo ‘graça’ é apenas para deixar claro que estamos falando de uma ação divina que antecede a conversão”. [1]Logo em seguida, ele transcreve uma citação longa de um texto que ele destaca que é do casal Charles e Dotty Schimitt. Entretanto, não conheço esse casal no meio arminiano nem encontrei o texto no link que o Dr. Campos colocou. Pesquisei e vi que eles são (ou eram) de tradição reformada holandesa. Mas a argumentação do casal Schimitt vai ao encontro do pensamento arminiano. Em defesa do embasamento bíblico para a graça preveniente, o casal cita Jo 8.1.9; 8.44,65; 12.32-33 e Atos 7.51). Campos afirma que esses versículos não tratam de uma graça preveniente, que prepara as pessoas para a salvação, mas sim da própria graça salvadora. Concordo com Campos que Atos 7.51 não trata da graça preveniente, mas trata de outro argumento sólido arminiano, que é sobre a graça resistível.
            Posteriormente, Campos menciona Jeff Paton, William Burt Pope e Thomas Oden para elucidar, muito bem elucidado, que para o arminianismo/wesleyanismo a graça preveniente possibilita que o ser humano se volte para Deus, pois antes da atuação dela o ser humano não tem como fazer isso, e também salienta que a graça preveniente, se não resistida, possibilita mais graça divina ao ser humano.
            O autor destaca, citando Thomas Oden, que a consciência iluminada do ser humano para a salvação não é natural, mas sim, justamente, a atuação da graça preveniente de Deus. Campos, no entanto, afirma que a graça preveniente não é eficiente, pois não leva ao arrependimento. Em seguida, o autor cita Wesley afirmando justamente que a consciência que todos os seres humanos têm não é natural, mas sim uma atuação da graça preveniente. Como Valmir Nascimento destaca no seu livro sobre graça preveniente, esta “é o meio pelo qual Deus, antes de qualquer ação humana, atrai graciosamente o pecador e o capacita espiritualmente para que se arrependa e se converta a Cristo”.[2]
            Campos menciona que os arminianos//wesleyanos não levam até as últimas consequências o porquê do ser humano não crer em Cristo, podendo crer. Ele escreve que provavelmente seja por causa da própria capacidade de escolha que a graça preveniente possibilita. Logo, não há o porquê da indagação do Dr. Campos. É isto mesmo. O ser humano não aceita a Cristo porque não quer, mesmo podendo aceitá-lo.[3] Comentei em outro lugar que a graça preveniente convence as pessoas dos seus pecados, “mas o fato é que o Espírito Santo, através da graça preveniente, convence todas as pessoas do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8)”.[4] As pessoas que cometem crimes, a não ser que tenham problemas psíquicos, são convencidas de que crimes são errados, mas os comentem mesmo assim. Logo, pessoas atraídas pela graça preveniente, podem crer, mas não creem porque não querem. Como C. S. Lewis afirma, as pessoas no Reino de Deus dirão a Ele, que seja feita a Sua vontade. Entretanto, as pessoas que estarão em condenação, Deus lhes dirá que a vontade delas seja feita.[5]      
            O autor não concorda com esse argumento acerca do ser humano sendo afetado pela graça, esta que desperta a fé dentro dele, poder rejeitá-la. A questão é que Estêvão, como mencionado em Atos 7.51, aborda que os judeus resistiram ao Espírito Santo. Logo, vemos, de acordo com o texto, que a graça pode ser resistida. O mesmo verificamos em Mateus 23.37 e Lucas 7.30, em que, respectivamente, constatamos que Jesus queria atuar salvificamente em Jerusalém, mas eles não quiseram (Jesus quis, mas eles não), e que os fariseus resistiram o propósito de Deus para eles.
            Em um trecho de seu artigo, Campos afirma que Armínio e Wesley criam na depravação total mais que seus seguidores. Infelizmente, esta declaração sobre os seguidores desses dois maiores ícones do arminianismo não é precisa. É desnecessário citar uma quantidade imensa de autores arminianos/wesleyanos que defendem a depravação total. Certamente, esta foi uma declaração imprecisa e insatisfatória na pesquisa do admirável Dr. Campos.
            Campos afirma, e concordo, que a graça preveniente faz com que o arminiano una depravação total e possibilidade de escolha. Na verdade, livre-arbítrio não é um termo preciso, mas sim arbítrio liberto,[6] pois, depois da queda, o ser humano perdeu o livre-arbítrio, ficando com o arbítrio preso, mas a graça de Deus, devido à expiação universal de Cristo, liberta o arbítrio, atuando retroativamente aos que viviam antes de Cristo.
            Há, em seguida, uma citação não de um proponente arminiano, mas sim de um oponente calvinista, John Hendryx, que consta que a graça preveniente nos coloca na posição de neutralidade de livre-arbítrio. Todos os arminianos/wesleyanos creem que a graça sempre está no ser humano, não existindo neutralidade. William Burt Pope, uma das maiores autoridades teológicas na tradição armínio-wesleyana, afirma que a graça preveniente “é a única causa eficiente de todo o bem espiritual no homem; do começo, continuação e consumação da religião na alma humana”.[7]
            Em um momento do artigo, depois de uma leve insinuação de que a depravação total no arminianismo não é verdadeiramente uma depravação, Campos afirma que na ânsia de Armínio, em que ele cita uma declaração deste sobre a graça preveniente, ao tentar se alijar tanto do calvinismo quanto do pelagianismo, não chega a ser diferente do semipelagianismo. Infelizmente, essa declaração de Campos não tem precisão teológica. Como Ivan de Oliveira afirma, no seu livro Pelagianismo e Semipelagianismo, “Pelágio e João Cassiano, respectivamente fundadores do pelagianismo e do semipelagianismo, tinham posições doutrinárias completamente distantes do que defendeu Jacó Armínio, notadamente, no que diz respeito à sua antropologia e hamartiologia”.[8] O pelagianismo afirma que o ser humano não caiu totalmente e não foi atingido pelo pecado original. Os semipelagianos entendem que o ser humano foi atingido pelo pecado original, mas que restou nele livre-arbítrio, sendo que pode se chegar a Deus por iniciativa própria. Isto não condiz com o arminianismo, que afirma que o ser humano caiu totalmente e que não pode, por si só, chegar-se a Deus, sendo, justamente, a graça preveniente de Deus que liberta o arbítrio, fazendo com que o homem se achegue a Deus. É iniciativa somente de Deus!
            Campos afirma que é uma desgraça, e não graça, Deus conceder uma graça que possibilita o ser humano rejeitá-la. As Escrituras não entendem assim. Já foram citados Mateus 23.37, Lucas 7.30 e Atos 7.51 corroborando que Deus toma a iniciativa na salvação humana, mas é rejeitado. Josué 24.15 aborda que Deus dá uma escolha para que Seu povo decida. Em Ezequiel 18.30-32 Deus coloca escolha perante Seu povo. Em João 7.17 Jesus diz que se alguém decidir fazer a vontade de Deus descobrirá se Seu ensino vem dEle. Há muitos outros versículos que afirmam que Deus é quem dá a possibilidade de escolha para o ser humano. Deus é tão soberano que possibilita isso. A. W. Tozer afirmou, defendendo o arbítrio liberto, que “um Deus menos que soberano não poderia dar liberdade moral para suas criaturas. Sentiria medo de fazer isso”.[9]
            Posteriormente, Campos critica a graça preveniente no tocante ao entendimento arminiano/wesleyano de que ela atua restringindo a maldade humana. Ele afirma que ela é diferente da graça comum, pois esta não depende de nenhuma cooperação humana. A questão é que arminianos/wesleyanos entendem justamente que a graça de Deus direciona-se para tudo, para salvação ou para impossibilitar o ser humano de ser tão mau quanto ele é naturalmente, por causa do pecado original.  Como Vinicius Couto afirma, a graça preveniente é irresistível quando ela atua inicialmente no ser humano, mas depois é resistida quando liberta o arbítrio no ser humano.[10]
            Na parte final de seu artigo, o autor afirma que os arminianos não têm coragem de afirmar que a vontade do ser humano é a determinante para que eles sejam salvos ou não, sendo que a graça preveniente de Deus é a penúltima ação no envolvimento da salvação. Jesus mesmo diz que quem quiser pode beber da Água da Vida (Ap 22.17). O ser humano só pode escolher ser salvo ou não porque Deus foi quem estabeleceu assim. Nada foge de seu comando.
            O autor afirma, já no final do artigo, que alguns arminianos creem que aqueles que nunca ouviram o evangelho podem ser salvos se viverem vidas perfeitas. Campos não menciona quais arminianos declararam isso. Seria pertinente ele mencioná-los. Enfim, há arminianos inclusivistas (dentre os quais me incluo), mas nunca li a respeito de que não evangelizados poderiam ser salvos se vivessem vidas perfeitas. Aliás, há calvinistas inclusivistas de renome, como Millard Erickson dentre outros.
            Quero salientar que as duas partes do artigo do Dr. Campos foi bem escrito, mediante suas pressuposições soteriológicas. Demonstou mais conhecimentos do que muitos pastores e demais irmãos e irmãs de tradição wesleyana aqui no Brasil que, infelizmente, conhecem quase nada da teologia de Wesley nem da riquíssima tradição wesleyano. Espero, entretanto, dias melhores para os wesleyanos brasileiros.
            Quando o Dr. Campos escreveu esse artigo, em 2012, o arminianismo no Brasil não tinha um acervo de livros tão grande quanto hoje tem.[11] Por causa disto, Campos não citou livros em português para embasar-se na produção do seu artigo. No entanto, não deixou de pesquisar direto nas fontes (embora haja algumas imprecisões) o que argumentou. Parabenizo o Dr. Campos!




[1] DANIEL, Silas. Arminianismo: A Mecânica da Salvação – Uma Exposição Histórica, Doutrinária e Exegética sobre a Graça de Deus e a Responsabilidade Humana. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 366.
[2] NASCIMENTO, Valmir. Graça Preveniente – Um Estudo sobre o Gracioso Agir de Deus para a Salvação Humana. São Paulo: Reflexão, 2006, p. 32.
[3] A expressão “aceitar a Cristo” não é muito bem vista pelos calvinistas conservadores, pois eles entendem que não é nós que aceitamos a Cristo, mas sim Cristo que nos elege incondicionalmente. Entretanto, um calvinista muito famoso e altamente relevante no meio evangélico é Francis Schaeffer. Este em vários de seus livros mencionava positivamente sobre “aceitar a Cristo”. Cf: SCHAEFFER, Francis. Verdadeira Espiritualidade – Uma Vida Ceia de Beleza, que Edifica e Inspira. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 17, 26, 29, 35, 47, 61, 62, 63, 78, 81, 82, 95, 106, 108, 109, 111, 112, 115, 117, 119, 120, 123, 125, 126, 135, 141, 142, 197, 202, 226, 230. Entendo, contudo, que Schaeffer não era calvinista na soteriologia. Para saber mais a este respeiro, veja: http://marlonmarques.blogspot.com/2020/01/carta-de-edith-schaeffer-esposa-de.html.
[4] MARQUES, Marlon. Salvação Integral – Salvação Pessoal e Social na Teologia de John Wesley. São Paulo: Reflexão, 2017, p. 42.
[5] LEWIS. C. S. O Grande Abismo. São Paulo: Vida, 2006, p. 14.
[6] MARQUES, Marlon. Arminianismo para Vida. São Paulo: Reflexão, 2018, p. 37.
[7] Apud: NASCIMENTO, Valmir. Graça Preveniente – Um Estudo sobre o Gracioso Agir de Deus para a Salvação Humana. São Paulo: Reflexão, 2006, p. 32.
[8] OLIVEIRA, Ivan de. Pelagianismo e Semipelagianismo. São Paulo: Reflexão, 2016, p. 52-53.
[9] TOZER, A. W. El Conocimiento del Dios Santo. Deerfield: Editorial Vida, 1996, p. 122.
[10] COUTO, Vinicius. Em Favor do Arminianismo Wesleyano – Um Estudo Bíblico, Teológico e Exegético de sua Relevância na Contemporaneidade. São Paulo: Reflexão, 2016, p. 170-171.
[11] Sobre este assunto, Cf: COUTO, Vinicius [Org.]. Soberania Divina e Responsabilidade Humana: Ensaios sobre a Teologia Armínio-Wesleyana. São Paulo: Reflexão, 2019, p. 31 a 109. Nestas páginas há três capítulos, escritos por Wellington Mariano, eu e Vinicius Couto, respectivamente, sobre o passado, presente e futuro do arminianismo no Brasil. Dentre o assunto desses capítulos, encontra-se a questão da produção literária arminiana pré e pós 2013.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Comentários sobre o Artigo de Heber Carlos Campos chamado A Graça Preveniente na Tradição Arminiana/Wesleyana (Parte 1)

    O texto de Heber Carlos de Campos tem um tom muito educado quanto às críticas que ele faz ao cerne do pensamento armínio-wesleyano, que é a graça preveniente, e muito acurado na elucidação que ele aborda o tema. Sinceramente, Campos demonstra um entendimento correto e cumpriu o propósito essencial de qualquer análise crítica de um pensamento oposto ao seu, que é ir direto às fontes primárias. Ele escreveu duas partes, sendo que trataremos da primeira parte de sua resenha. Campos trabalha exclusivamente com autores armínio-wesleyanos. Não menciona arminianos clássicos (como Robert Picirilli, Leroy Forlines, Mathew Pinson e outros). Você pode conferir a resenha do Heber Carlos Campos aqui.
    Campos começa sua resenha crítica separando os conceitos de graça comum (calvinista) da graça preveniente (arminiana). A primeira não tem propósito salvífico, algo que tem na segunda. Ele aborda muito bem a questão que a graça preveniente não leva necessariamente a pessoa a crer, mas esta crê por causa daquela. O resenhista cita o teólogo wesleyano Jeff Paton, que afirma: "sem a graça ou o poder para crer nenhum homem jamais creu ou pode crer".
    O autor assevera que os arminianos respondem a pergunta sobre o porquê de nem todos crerem, já que todos recebem a graça preveniente, afirmando que é por causa do uso devido ou indevido da liberdade da vontade, a tônica da antropologia libertária.
    Campos dilui um entendimento errado que muitos calvinistas têm para com o arminianismo (seja o clássico ou o wesleyano), que é a falsa afirmação que os arminianos creem numa depravação parcial. Campos afirma que Calvino e Wesley têm posições parecidas quanto à questão da depravação humana, ou seja, ambos creem na depravação total.
    O resenhista destaca que a justificação apenas pela fé está para o luteranismo assim como a graça preveniente está para o wesleyanismo. Campos cita o teólogo metodista Robert Chiles, que assevera em seu livro Theological Transition in American Methodism que sem o conceito de graça preveniente, o calvinismo é irrefutável.
    No seguimento de sua resenha, Campos afirma que a depravação total vai perdendo força com a atuação da graça preveniente ao ser destinada a todas as pessoas. Aqui houve uma crítica velada ao entendimento arminiano (seja das duas vertentes), pois o resenhista deixa a entender que a depravação já não é mais total com a atuação da graça preveniente. A questão é que todo homem sem a graça está totalmente incapacitado de responder o Evangelho. Não há nada demais, ao meu ver, em a depravação já não ser total com a graça. Errado seria se o arminianismo advogasse que  a depravação total não existisse antes da graça preveniente.
    Campos afirma que o wesleyanismo surgiu no meio anglicano. Com isso, houve duas interpretações do artigo sobre o livre-arbítrio dos 39 Artigos de Fé da Igreja Anglicana. Uma era a interpretação católica (anglo-católica) e a outra era a interpretação calvinista. Os calvinistas, declara o resenhista, não ficaram contentes quando o artigo evoca que a graça coopera quando temos boa vontade. Já o entendimento católico se coadunava com essa interpretação do décimo artigo, sendo a interpretação que Wesley adotava.
    O resenhista cita João 1:9, João 12:32 e Tito 2:9 como provas bíblicas que os armínio-wesleyanos usam para validar biblicamente a graça preveniente, assim como todos os versículos bíblicos que os arminianos se baseiam quanto à expiação universal. Contudo, Campos, citando Millard Erickson, critica o embasamento bíblico armínio-wesleyano da graça preveniente afirmando que ela  não se encontra nas Escrituras. Campos cita até Clark Pinnock, que afirmou isso também. Entretanto, recomendo o livro do pastor assembleiano Valmir Nascimento chamado Graça Preveniente,  publicado pela editora Reflexão para a verificação de um respaldo bíblico acerca da graça preveniente.
    Campos menciona a citação de Wesley sobre ninguém neste mundo ser destituído da graça preveniente, pois ninguém está no seu estado de natureza sem a influência da graça. É preciso destacar que esse é o entendimento armínio-wesleyano da graça preveniente. O arminianismo clássico entende que é só pela pregação do Evangelho que a graça preveniente atua libertando o arbítrio da pessoa para que ela possa crer se quiser.
    O trecho do escrito de Campos, a saber, "portanto, na teologia arminiana/wesleyana, o pecado de Adão, por causa da graça preveniente, nunca traz mais qualquer condenação ao pecador", não é preciso, pois dá a entender que a teologia arminiana não advoga mais condenação a ninguém. 
    O resenhista afirma que Wesley em momentos de seus escritos se aproxima do entendimento calvinista sobre o momento da irresistibilidade da graça preveniente e em outros momentos se aproxima do entendimento semipelagiano católico e arminiano protestante. Ele cita Wesley afirmando que em alguns a graça é irresistível. Sobre isso, é mister destacar que Wesley pensava, como muitos arminianos hoje pensam, que a graça preveniente é, a princípio, irresistível, pois ela não pede o consentimento de ninguém para atuar libertando o arbítrio de todas as pessoas para que possam crer no Evangelho e serem salvas. Campos cita Paton acerca disso. Somente nesse momento inicial ela é irresistível. Posteriormente, quando o arbítrio humano é liberto, ela não é mais irresistível. Sobre Wesley afirmar que em alguns a graça salvífica é irresistível, ele dá a entender isso mesmo em um texto que ele escreveu para apaziguar os ânimos com seu amigo calvinista George Witheifield. Contudo são somente alguns poucos que a graça salvífica é irresistível (Wesley mesmo diz que não pode provar isso), mas que na grande maioria das pessoas a graça salvífica atua de forma resistível. Campos cita o metodista Gregory Neal, que afirma que a graça irresistível não é nem graça nem dom.
    O resenhista menciona Gênesis 6:3 e João 6:39,44 como usados pelos arminianos para defenderem sua doutrina. Em Gênesis 6:3, Campos salienta que os arminianos declaram que o homem luta com Deus e pode vencê-lo. A respeito de João 6:39, 44 são versos acerca da atração da graça preveniente.
    Campos cita novamente Paton, que menciona Gálatas 2:21 e Hebreus 10:29 sobre a questão da luta humana que pode desembocar na salvação. Cita mais uma vez Paton que, segundo Campos, afirma uma via média entre o calvinismo e o libertarianismo ao declarar que o homem natural não é livre para responder por si mesmo. A questão é que este é o entendimento intrínseco do arminianismo.
    O resenhista menciona que para Wesley a soberania de Deus não é o mais importante. Grosso modo, podemos até concordar com Campos. Wesley destacava sim mais o amor de Deus do que sua soberania. A respeito disso, destaco o livro do metodista livre Don Thorsen chamado Calvino x Wesley e publicado pela editora Carisma, onde, em um dos capítulos, Thorsen destaca essa ênfase de Wesley mais no amor de Deus do que na sua soberania.
    Campos salienta que a graça preveniente livrou Wesley da acusação de salvação pelas obras. Ele destaca também que Wesley entendia que sem a graça preveniente o homem não é responsável, porque não pode responder ao chamado salvífico de Deus. Com ela, o homem se torna indesculpável, pois os efeitos do pecado original foram diminuídos.
    O resenhista destaca que para os arminianos a morte de Cristo anula o pecado original em todos os seus efeitos. Contudo, desconheço qualquer arminiano afirmar isso, nem em Armínio nem em Wesley. Seria bom se Campos citasse fontes dessa sua declaração.
    Campos cita o famoso teólogo wesleyano do século XIX John Miley, que declara que todos os homem são redimidos. Campos salienta que é melhor ter afirmado que todos os homens são redimíveis. Neste ponto, seria preciso ver a citação de Miley no original em inglês para uma melhor análise.
    O resenhista cita Kenneth Grider, que cita um evangelista (que Campos não cita o nome, mas é o evangelista nazareno Bud Robinson) afirmando que Deus vota a favor do homem, o diabo vota contra o homem, mas o homem tem o poder decisivo. Vendo a citação na obra de Grider, entendo que ele não consentia com essa declaração, mas somente a citou. Claramente, este é um entendimento errôneo acerco do arminianismo (seja de qualquer vertente). Roger Olson critica esse falso entendimento arminiano no seu livro Teologia Arminiana - Mitos e Realidades publicado pela editora Reflexão.
    Mais à frente, Campos cita a teóloga Mildred Bangs Wynkoop, que declara que a graça possibilita ser ela mesma rejeitada. Campos entende que isso é fazer com que a graça lute contra si mesma. Este entendimento é quando não se tem um entendimento libertário da vontade humana, ou seja, que não crê que o ser humano tem vontade livre, tendo somente a vontade orquestrada por Deus. Entendimento este de Campos.
    Campos cita Kenneth Jones, que declara que o Espírito Santo atua com a graça preveniente tão logo a criança possa entender qualquer coisa. Seria melhor entendido quando explicado que a graça preveniente atua libertando o arbítrio humano tão logo a criança alcança a idade da razão.
    O autor cita metodistas liberais (ou progressistas) que creem que a graça preveniente salva pessoas que nunca ouviram o Evangelho independente delas crerem ou não. Estas são salvas somente por contemplarem as obras da criação. Ele cita Wesley Ariarajah, que afirma que a tarefa evangelística é ajudar as pessoas a se moverem da graça preveniente para a graça salvadora, já que todas são salvas. É preciso destacar que uma parcela do metodismo aderiu à teologia liberal, sendo que a maior parte não é liberal, mas sim conservadora.
    Em sua conclusão da primeira parte do seu artigo sobre a graça preveniente no pensamento armínio-wesleyano, Campos critica os arminianos ao afirmar que a graça preveniente é apenas um arranjo para suavizar os efeitos do pecado nos homens e que é incrível como a graça possa ser dada para a própria desgraça do que a recebe. A questão é que qualquer coisa que pode ser dada, pode se transformar em uma coisa boa ou má. Isto vale para o dinheiro, carro e até um cônjuge!
    Em um próximo artigo, comentarei acerca da segunda parte da resenha de Campos. Saliento novamente que Campos fez um bom trabalho, a despeito de algumas críticas que ele fez que são até normais, haja vista ele ser de tradição reformada.

Marlon Marques
    

    

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sobre a obra Prevenient Grace de W. Brian Shelton



por Ben Witherington, out 2015 



É fato curioso, mas, mesmo assim, não deixa de ser um fato (como corretamente Thomas Schreiner se queixou), que os arminianos não fizeram um trabalho exaustivo para articular o que o conceito de graça preveniente significa, e por que é importante. Felizmente, para remediar a deficiência, agora há uma obra de Brian Shelton (Prevenient Grace: God’s provision for fallen humanity [Graça Preveniente: a provisão de Deus para a humanidade caída]), da qual ele gentilmente me enviou um exemplar. O livro tem 283 páginas e cobre o tema “de popa a proa”, incluindo discussões de teologia bíblica, histórica e sistemática. Shelton mostra que a ideia faz sentido e, de fato, é vital para uma adequada teologia da queda do homem e da graça de Deus. Minha preocupação, como já a expressei em The Problem with Evangelical Theology [O Problema com a Teologia Evangélica, 2ª ed.], é que as bases exegéticas para esse conceito parecem ser frágeis, e ninguém deveria construir enormes edifícios teológicos, não importa quão esplêndidos ou consistentes, sobre alicerces frágeis. Este post focará naquilo que Brian diz acerca da evidência exegética para o conceito, ao qual dedica 44 páginas do livro (na realidade, as primeiras dez páginas do capítulo tratam principalmente da depravação humana e do pecado original, não da graça preveniente).
A primeira dificuldade que tenho com a matéria é a colocação da discussão sob o termo graça. Essa direção teológica não é surpresa, uma vez que toda a teologia da Reforma se concentrou fortemente na salvação pela graça por meio da fé, e, mesmo antes disso, Aquino e Agostinho muito disseram a respeito da graça, incluindo uma espécie de graça que não é “graça salvadora”. No esquema wesleyano, diferentes formatos de graça estão relacionados aos vários estágios do processo de salvação: graça preveniente, que atrai a pessoa a Cristo; graça salvadora, que vem com a justificação e, às vezes, chamada de graça justificadora; graça santificadora, sendo aquela que opera na vida dos que já são cristãos; e, por fim, graça aperfeiçoadora ou glorificadora, que leva o processo de salvação à sua conclusão apropriada. Isso, naturalmente, visa a deixar claro que a salvação é pela graça do começo ao fim, qualquer que seja o papel secundário que a pessoa que está sendo salva possa desempenhar no processo. Embora, certamente, haja considerável debate sobre a graça no Novo Testamento, o fato é que a expressão “graça preveniente” não aparece no NT, assim como a expressão nominal “o batismo do Espírito Santo”. A questão, então, vem a ser: a ideia ou conceito está presente no Novo Testamento?
Penso que parte do problema é que a discussão ficou muito restrita ao âmbito dos debates sobre a graça. Tome, por exemplo, o Evangelho de João, que é tão importante para a defesa que Shelton faz a favor da graça preveniente. A própria palavra graça (charis) realmente ocorre apenas em uma ocasião em todo o Evangelho, no primeiro capítulo (“a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”). Em contrapartida, o Espírito Santo e Cristo aparecem em um grande número de passagens. Então, eu diria, inicialmente, que seria bem melhor falar da obra preveniente do Espírito sobre o não crente, e no mundo, do que falar sobre graça preveniente. Essa é uma abordagem muito mais exegeticamente defensável sob vários aspectos.
O segundo aspecto do problema, de novo falando teologicamente, é que há passagens muito claras no Novo Testamento, por exemplo Romanos 7:14-25, que evidenciam que, no mínimo, uma enorme parte da humanidade está na escravidão do pecado, e dela não consegue livrar-se. Tais pessoas podem, às vezes, desejar agir de outro modo, e o texto mesmo diz que querem fazê-lo de forma diferente, mas quando tratam de fazer, estão presas à pratica de algo pecaminoso. A passagem inteira não se harmoniza confortavelmente com a noção de graça preveniente universal, se por essa noção pretende-se dizer que o pecador tem livre arbítrio libertário por ocasião do pecado. Se, por outro lado, o que se entende pelo conceito é simplesmente a mera habilidade que permite responder positivamente ao Evangelho, quando é ouvido, essa é outra questão, que o próprio Wesley enfrentou em antigo sermão sobre o homem natural vs. o homem evangélico etc., concluindo finalmente em sermões posteriores que não há tal coisa como um homem puramente natural, totalmente desprovido da graça preveniente (exceto talvez se a pessoa se afaste dessa graça?). Precisamos agora tratar exegeticamente do cerne da questão.
Primeiramente, não penso que Romanos 1:18-32 realmente nos ajude muito nesse exame. Não se trata de uma abordagem sobre a graça, ou da graça que vem a todos os homens como resultado da intervenção divina de Cristo. Ao contrário, o texto trata da revelação geral da realidade de Deus e de seu poder a toda a humanidade por intermédio da criação divina. Se essa passagem quer dizer alguma coisa, diz respeito à noção de que todos os seres humanos, criados à imagem de Deus, ficam inescusáveis, quando se trata de saber que Deus é, e é Todo-Poderoso, pois tem se revelado a todos na e através da criação e de suas criaturas. “Os céus contam a glória de Deus...” e assim por diante. Trata-se da teologia da criação, não da teologia da redenção, e, desse modo, não surpreendentemente está em causa Deus, o Pai, e sua ira contra toda iniquidade, e não Jesus, o Filho, e sua graça. Esta última abordagem vem adiante em Romanos. O capítulo 2 é um pouco mais útil, porque fala acerca da tolerância, bondade e paciência de Deus com os pecadores gentios e judeus, mas o que se afirma ali tem a ver com o caráter de Deus, e não com alguma dispensação universal da graça que rompe a escravidão do pecado.
Muito mais relevante é a análise feita por Shelton do Evangelho de João (pp. 24 e segs.), e especialmente João 1:9, que considero estar se referindo a Cristo, que é a luz que vem ao mundo por meio da encarnação conforme tratada nessa passagem, e nos é dito que ele ilumina a todos, a toda a humanidade em sua vinda. Se simplesmente nos ativermos ao contexto imediato, no mínimo isso significa que Cristo revela a todos sua condição espiritual de trevas e, consequentemente, a necessidade de arrependimento e salvação. Essa passagem não é meramente sobre a teologia da criação e da revelação geral de Deus na criação, mas sobre a aurora da redenção, porque Deus ama o mundo inteiro e deseja que ninguém pereça. Agora estamos chegando a algum lugar.
Igualmente conveniente é a desconstrução que o autor faz da habitual interpretação calvinista de João 6:44. Como Shelton corretamente frisa, esse texto sobre a atração das pessoas por Deus com certeza tem de ser relacionado com João 12:32, onde se diz que, quando Cristo fosse levantado na cruz, ele atrairia (o mesmo verbo grego) todos os seres humanos para si. Atrair, então, pode não ter nada a ver com a noção calvinista de eleição ou chamada eficaz dos poucos predestinados. E João 12:32, como Shelton também deixa claro, não pode ser defraudado com o frágil argumento de que estava meramente sugerindo que Cristo atrairia todas as classes ou tipos de pessoas para si mesmo. Não. O texto não diz isso, e muito do restante desse Evangelho não comporta tal leitura de João 12:32. Há um aspecto que Shelton não pontuou que vale a pena salientar: o termo “mundo” (kosmos em grego) nesse Evangelho se refere a todo o mundo da humanidade caída, a quem Cristo veio salvar. Dessa forma, quando lemos em João 3:16-17 que Deus ama o mundo, não há como isso ser manipulado para o pensamento de que Deus tem amor pactual pelos eleitos.
E é neste ponto que eu digo que, embora João 1:9 mostre claramente que Cristo é aquele que ilumina nossa condição espiritual, é o Espírito Santo quem, de acordo com o Quarto Evangelho, evidencia a condenação, convence e converte a pessoa (note-se que o Espírito evidencia ao mundo a condenação pelo pecado – João 16:8-11). O Espírito é também aquele que, após a conversão, guia o discípulo a toda a verdade. Assim, parece-me que é preferível falar da obra preveniente do Espírito no descrente a tratar de graça preveniente. Por fim, o que, então, deveríamos fazer de Romanos 7:13-25?
Primeiramente, como discorro extensamente em meu comentário à Carta aos Romanos, as pessoas a que essa passagem se refere são todas aquelas que estão “em Adão” e alheias a Cristo. Em Cristo há, verdadeiramente, libertação da escravidão do pecado (veja Romanos 8:1-4). Paulo está apresentando uma visão cristã da condição pré-cristã, a qual efetivamente envolve a escravidão do pecado. Mas é essa mesma passagem que nos conta que esse “Eu” em questão tem uma consciência, deseja fazer melhor, mas não consegue, e poderíamos mesmo dizer que está sob a convicção de pecado.  Essa é uma razão pela qual uma das sugestões de Wesley em alusão a Romanos 7:14-25 é a de que o texto descreve alguém à beira da conversão e sob a convicção de pecado. Penso que a sugestão provavelmente esteja correta.
Discordo da noção de que o ser humano perdeu a imagem divina e a capacidade de consciência na Queda. Se fosse assim, o próprio Adão não teria experimentado vergonha por seu pecado. Sem consciência, não há vergonha. O que Paulo está sugerindo é que o Espírito restaura a simples habilidade para corresponder à convicção operada pelo próprio Espírito e clamar voluntariamente e sem predeterminação: “quem me livrará deste corpo de pecado?”. É esse o clamor do coração - o clamor para ser livre da escravidão do pecado - que o Deus gracioso capacita qualquer pessoa a proferir oportunamente na vida, e, desse modo, responder positivamente ao pregador que então diz: “graças a Deus por Jesus Cristo, pois agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.
Em outras palavras, prefiro falar da obra contínua da Trindade, que possibilita que a pessoa responda ao chamado para arrependimento e fé em Jesus Cristo, a falar de graça preveniente, embora, certamente, aquilo de que estou falando envolva o favor imerecido de Deus, seu dom gratuito. Nem mesmo se pode pedir a Deus ajuda, sem que Ele já tenha trabalhado na vida do pecador. Não necessitamos de uma doutrina de predeterminação, ou chamado eficaz do eleito, para lidarmos adequadamente com o que dizem o Quarto Evangelho e a Carta de Paulo aos Romanos sobre essas coisas. E, finalmente, caso mais uma vez você esteja se perguntando a respeito de Romanos 8:28 e segs., ali Paulo está confortando aqueles que amam a Deus e são chamados segundo a escolha ou propósito (não diz “sua” escolha ou propósito [no original]) a que, de fato, foram destinados previamente, para serem conformes à imagem do Filho de Deus. Trata-se do destino daqueles que estão em Cristo, não da determinação prévia de quem será admitido a estar em Cristo. A história de Cristo é o nosso destino, em que somos completamente moldados à sua imagem por meio da ressurreição no Último Dia.
Pense nessas coisas.

Tradução: Wesiley Monteiro

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Graça Preveniente: Por Que Eu Sou um Metodista e Evangélico



Timothy Tennet
      Em primeiro lugar, eu sou um metodista porque acredito na graça preveniente. Para Wesley, a vida espiritual não tem esperança de um começo sem ação prévia de Deus em favor do pecador. A graça preveniente é um termo coletivo para todos os modos pelos quais a graça de Deus entra em nossa vida antes da conversão. A graça preveniente significa, literalmente, "a graça que vem antes" e capta bem o que a igreja primitiva chamou de evangelica preparatio , ou seja, a preparação para a boa notícia. Uma das maneiras em que a tradição Metodista Wesleyana por vezes é mal compreendida por pessoas de outras tradições é em relação a nossa doutrina do pecado. Pode vir como uma surpresa para alguns de nossos leitores reformados que a doutrina da depravação total (o famoso T no calvinista TULIP) é compartilhada por wesleyanos e metodistas tão ardentemente como por calvinistas. Metodistas, como nossos irmãos e irmãs reformadas, acreditam que a salvação é impossível sem um ato livre e antes de Deus em favor do pecador. Depravação total significa que estamos mortos em nossos pecados e, portanto, não podemos nos ajudar ou nos assistir a nós mesmos. O pecado não é meramente uma "bola de corrente" que impede o nosso progresso. Estamos mortos em nossos delitos e pecados (Efésios 2:5). Metodistas afirmam esta verdade. No entanto, metodistas levam muito a sério a tensão teológica que existe entre, por um lado, o ensino claro da Escritura que estamos mortos em nossos pecados e totalmente desprovido de qualquer capacidade de nos salvar (Ef 2:1, Col 1: 21, 2:13; Lc 15:24) e a chamada universal do Evangelho que nos obriga a "vir" (Mateus 11:28), "arrepender" (Atos 02:38), "acreditar" (Atos 16 : 31) e toda uma série de outros comandos. Todos que nos chamam a atos específicos de fé e obediência. Como as pessoas espiritualmente mortas não têm capacidade de resposta, é claro que Deus está concedendo a graça de inúmeras formas em nossas vidas antes de nossa regeneração ou conversão. A graça preveniente fornece a ligação entre a depravação humana e o chamado universal. A diferença importante entre metodistas e cristãos reformados não está no fato da depravação, mas sobre se qualquer ação prévia de Deus é limitada aos eleitos (Expiação Limitada - o L no TULIP) ou é universal. Apesar do enorme respeito que temos por João Calvino, metodistas não acreditam que a doutrina calvinista da expiação limitada se ajusta aos dados bíblicos tão bem como a doutrina da graça preveniente. Os metodistas acreditam que Deus universalmente agiu em nome da caída raça depravada de Adão. Nós acreditamos que Cristo, como o Segundo Adão, resgatou a raça humana com um ato de graça que lhes confere a capacidade de aceitar ou rejeitar a boa notícia do Evangelho, quando é proclamado. Wesleyanos acreditam que, se a doutrina da depravação humana não está ligada à ação de Deus na graça preveniente, ele cria um conflito teológico insustentável que, pelo menos potencialmente, faz com que Deus seja injusto ou o autor do mal, nem de que se encaixa com uma visão bíblica de Deus. Pois, se uma pessoa espiritualmente morta é incapaz de responder ao chamado de Deus, então, com que base é que ele ou ela responsabilizado pelo pecado? A graça preveniente demonstra como podemos ser totalmente depravado, mas dada a graça de responder e, se não responder, pode ser plenamente responsabilizados por nossa descrença.
      Para metodistas, a graça preveniente é a ponte entre a depravação humana e o livre exercício da vontade humana. A graça preveniente levanta a raça humana para fora da sua depravação e nos concede a capacidade de responder mais à graça de Deus. Jesus declarou que "ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (João 6:44). Metodistas entendem este texto como referindo-se a um desenho divino enraizado no Deus Uno e Trino, que precede a nossa justificação. É ato de favor imerecido de Deus. É a luz de Deus " que ilumina todo o homem" (João 1: 9), elevando-nos e dando a raça humana a capacidade de exercer a nossa vontade e responder à graça de Cristo. Thomas Oden coloca muito bem quando ele diz que "a vontade divina sempre 'vem antes' ou 'pré-vem' (lidera o caminho) à vontade humana, de modo que a vontade humana pode escolher livremente de acordo com a vontade divina. "1
      O pensamento wesleyano afirma que Deus tomou a iniciativa de criar uma capacidade universal para a raça humana receber sua graça. Muitos, é claro, ainda resistem à sua vontade e persistem em rebelião contra Deus. O pensamento wesleyano é, na verdade, uma posição intermediária entre uma visão pelagiana (que faz de cada pessoa um Adão e não admite nenhuma natureza pecaminosa ou escravidão devido a natureza de Adão) e da visão reformada (que afirma expiação limitada). O que wesleyanos dizem com livre-arbítrio é realmente "vontade livre", ou seja, um testamento em cativeiro que foi libertado por um ato livre da graça de Deus. Naturalmente, não é livre em todos os aspectos possíveis, uma vez que são todos influenciados pelos efeitos da Queda de muitas maneiras, mas agora temos uma capacidade de restauração, o que permitiu nosso coração, mente e vontade de responder à graça de Deus. Eu amo o fato de que metodistas acreditam que mesmo que você vá até os confins da terra com o evangelho, você sempre vai achar que Deus precede você e, com efeito, "supera você lá!" Talvez a graça preveniente é resumida melhor pela famosa interrupção de um missionário que estava lecionando na África sobre como os missionários levaram o Evangelho à África. O crente africano interrompeu e disse: "Os missionários não levam o Evangelho a África. Deus trouxe os missionários para a África." Este comentário perspicaz muda a ênfase para a agência anterior de Deus e na grande missio Dei (missão de Deus), pela qual Deus é sempre o primeiro ator no grande drama da redenção. Wesleyanos abraçam plenamente a importância da decisão humana e o exercício da vontade. No entanto, isso não é possível sem uma ação prévia de Deus.
. 1 Thomas Oden, Teologia Sistemática vol, 2, A Palavra da Vida (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 2001), 189. Salvo disposição em contrário, este blog usa a Nova Versão Internacional.
Tradução: Marlon Marques
Fonte: http://timothytennent.com/2011/07/05/prevenient-grace-why-i-am-a-methodist-and-an-evangelical-part-2/